segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Falta de educação marcam cerimônias de formatura

Com 12 anos e meio tive autorização para ir à formatura do meu pai em Administração. Na década de 1970 era tradição as formaturas do colegial (que depois foi chamado de científico, depois de 2º grau e atualmente de Nível Médio). Se você é tem menos de 40 anos, talvez não saiba o que isso representava. Era uma honra recheada de emoção para uma garota, principalmente porque teria a oportunidade de ver como era um baile. Crianças ou pré-adolescentes não participavam de eventos à noite.

Junto com o pacote de sonho veio o meu primeiro vestido longo. Tudo simples, sem brilhos, mas, aos meus olhos, lindo: rosa, com alça em V e marcação sob os seios. Era a segunda formatura de Nilton Cavalcante Amorim; dois anos antes ele se formara em Contabilidade. Era o máximo que se chegava em Paulo Afonso (BA), onde ainda não havia faculdades.

Toda a solenidade acontecia no Clube Paulo Afonso (COPA). A entrega dos diplomas e o baile. Tudo com muita formalidade e respeito. Lindo! Um a um dos formandos eram chamados e entravam com seu par. No caso de papai, minha mãe.Eles ficavam perfilados e iam sendo homenageados com seus diplomas, e aplaudidos por todos. Depois vinha o baile, com a valsa que eu amava!

Nestes últimos três anos tenho ido à solenidades de formatura dos filhos de amigos-vizinhos e do meu próprio filho. Desta vez formaturas em cursos de nível superior. E vou apenas para participar deste momento tão importantes para formandos e seus pais. Na de Acácio, pelo óbvio. Mas fico frustrada e constrangida a cada vez, confesso. Em minha opinião, o ritmo dado às formaturas pelas agências de eventos especializadas e pelos próprios formandos, com a complacência das faculdades, fez com que se perdesse a elegância, a formalidade, o glamour. Fez com que ganhasse a marca da falta de educação.

As cerimônias de formatura viraram uma baderna, convenhamos. O silêncio respeitoso foi substituído pelo barulho ensurdecedor de cornetas que são tocadas incessantemente próximas aos ouvidos de quem está sentado na fila da frente. Os aplausos indistintos a todos os formandos por sua conquista foram substituídos pela barulhenta torcida de cada um. Uma aberração; o máximo da falta de educação! A cada formando chamado para colar grau e receber o diploma, de um salão imenso ( como é o caso Salão Iemanjá do Centro de Convenções da Bahia) apenas os seus convidados se levantam e aplaudem. Todo o resto fica quieto em seu canto, com cara de tédio e de "que horas isso vai acabar?". Se o grupo é grande, o barulho é proporcional. Se o aluno é de outra cidade e tem apenas dois ou três convidados, fica um silêncio constrangedor. Que feio!!!

Ainda tem o fato de que o mestre de cerimônias foi substituído por dois formandos. Como um homenageado pode conduzir a cerimônia??!! Pais corujas podem até achar uma graça seu/sua filho(a) gaguejar ao ler, pela emoção e pela falta de experiência, as características dos colegas. Mas, tecnicamente, é deselegante. Formando  é formando. Mestre de cerimônia é mestre de cerimônia.

Apesar de achar uma boa homenagem aos pais, cônjuges e outros parentes subir ao palco e participar mais ativamente da cerimônia, acho um equívoco a entrega do canudo a um dos pais para que este o entregue ao filho. Quem se forma é o aluno. Quem forma é a faculdade. Então, quem deve receber das mãos do representante da escola é o formando. Aos pais caberia a comemoração, o abraço, a foto para a posteridade.

Definitivamente não gosto dessa roupagem pós moderna das formaturas. Se há a opção por uma cerimônia formal, com beca e roteiro solene, que assim seja. Que a educação seja restaurada e todos aplaudam todos. Que o aplauso e assovios - vá lá! - sejam as únicas formas de homenagem por parte dos convidados. Cornetas ficam melhor em jogos da Copa do Mundo. Que formandos sejam apenas formando e não cerimonialistas. Que usem a tribuna apenas para o juramento e o discurso do orador da turma. E que as faculdades assumam o comando das suas cerimônias de formatura. A informalidade deve ficar para depois, para a festa, onde a música fará par certo com a alegria extravasada.

Você pode  discordar e até achar exagerado e intolerante o meu pensar, mas, definitivamente, tenho saudade das formaturas dos velhos tempos.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Reflexões sobre a renúncia do papa Bento 16

Tenho uma mania que não sei se é boa ou ruim. Em minha opinião, acho boa. Mas, não sei o que você, leitor, pensa. Esta minha mania é a seguinte: sempre que tomo conhecimento de um fato de grande repercussão tento me colocar no lugar... tento saber como eu agiria. Será que sou corajosa assim? Será que sou honesta como tal pessoa? Será que sou capaz de amar como esta outra? Será que perdoaria em tal situação? Claro que nem sempre tenho as respostas. Nessa semana que acabou o meu exercício foi motivado pela renúncia do papa Bento 16. Será que tenho humildade para admitir minha incapacidade para alguma coisa?

A renúncia do papa pegou todo mundo de surpresa na segunda-feira, 11. Afinal, a última renúncia ( houve três outras) aconteceu há mais de 600 anos. Especulações sobre pressões internas no Vaticano também não faltaram para encontrar justificativas. Mas não quero confabular sobre a política do Vaticano ou o impacto dessa renúncia sobre o mundo católico. Quero falar do ato de admitir ser ou estar incapaz para alguma coisa.

Em sua declaração oficial, Bento 16
( Joseph Ratzinger) disse:

" [...] Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado.[...]"

Esse trecho da declaração de Bento 16 é ou não um ato de humildade? Será que eu conseguiria ter essa atitude? Será que você teria? Sei que você pode dizer que ele já vai fazer 86 anos, está velho e cansado e 'tava na hora de dar a vez a alguém mais jovem, com propostas mais progressistas.  Mas também não quero conduzir nossa confabulação por aí.

Muitas vezes somos testados sobre nossa humildade nas coisas mais simples do dia a dia. Nem sempre, evidentemente, convivemos bem com isso. Temos que provar que somos bons em tudo o que nos propomos. Que somos incansáveis e eternos. Que nunca adoecemos, que nunca sofremos, nunca choramos, nunca temos vontade de parar tudo e ficar quietinhos, sem fazer nada, só descansando. Ser humilde parece ser fraco.

Mesmo que Bento 16 não tenha exalado a mesma energia e carisma que João Paulo II, com esse seu ato passei a admirá-lo. Não é qualquer um que solta assim o bastão de uma religião com mais de 1 bilhão de seguidores no mundo. Não é fácil renunciar ao poder. Que o diga nossos governantes.

Antes de publicar esta confabulação conversei sobre isso com o meu marido. Perguntei-lhe se ele seria capaz de renunciar. "Por que não?", respondeu. "Você acha que não é capaz?". Disse-lhe que não tinha certeza. "Esqueceu que você renunciou ao trabalho da Defensoria (Pública da Bahia) ?" De fato eu tinha esquecido. Trabalhava em dois lugares e planejava deixar um deles em 2010. Queria permanecer na coordenação de Comunicação da DPE. Mas, justamente por ser a mais desafiadora e que me exigia muita dedicação, tive que renunciar a ela quando passei a engordar a estatística de hipertensos. Foi uma decisão difícil e chorei muito quando a tomei. Precisava cuidar mais da saúde.

Queria saber de você: já renunciou alguma vez algo importante para você? Foi difícil? O que motivou sua decisão? Se você fosse o papa, teria renunciado? Venha cá e confabule comigo.