segunda-feira, 9 de março de 2020

Marias e Não Marias - mulheres fortes da minha vida

Minha primeira Maria - Cleonice, minha mãe.
Retomo minhas confabulações neste dia dedicado às mulheres. É o que é. Nasci em um lar de muitas Marias. Sete.  Maria Cleonice – minha mãe. Minhas irmãs – Maria de Fátima, Maria da Vitória (sim, da vitória), Vania Maria, Ana Maria, Maria Aparecida. Eu, Vanda Maria (embora só o Yahoo e o pessoal de vendas de telemarketing me chamem assim). Mas não para por aí. Meu lar tem mulheres Não Marias - três. Mirian – homônima de uma tia e de uma prima, devido ao amor que meu pai, Nilton, e meu tio Manoel tinham pela irmã deles, tia Mirian. Tem Vera Lúcia e Kátia Luciana. Homens, só papai e meus irmão Niltinho e Roberto.

 Desse grupo, sou a filha do meio. A que teve mais oportunidade de conviver com os cinco que chegaram antes e as meninas que chegaram depois. Talvez pela quebra na diferença de idade. E essa convivência deixou registrado em minha mente e em minha alma a caraterística de cada uma. Mas o entendimento de que minha mãe era uma mulher forte, apesar de a perceber frágil em sua dependência econômica e amorosa do meu pai, veio depois, quando me tornei adulta e pude compreendê-la.

Casamento de Maria Cleonice com Nilton
A primeira Maria, a Cleonice, mamãe. Sagitariana de 16 de dezembro. Casou aos 17 anos com papai (que tinha 20). Deixou de ser Galindo Melo para ter apenas o sobrenome do marido - Amorim. Não sabemos se por erro do cartório ou decisão unilateral de papai. Como era comum na década de 1950, a mulher não trabalhava fora de casa. Sua função era de dona de casa – lavar, passar, cozinhar, arrumar a casa; de mãe – alimentar, dar banho, educar e corrigir os desvios e desobediência; à noite, estar disposta e disponível para o sexo com o marido. Assim, dos 19 anos aos 37 anos gerou 12 filhos – 11 nasceram, cresceram e se multiplicaram. Todos estão vivos.

De um jeito bruto trouxe em rédeas curtas toda a prole, com algumas intervenções de papai. Não temos mágoas pelos puxões de orelha, chineladas e lapeadas com galhos do pé de Pinha. Este galhinho usava quando, rebeldes, não queríamos sair da rua. Ela ficava no portão, chamando por nossos nomes. Quando víamos o galhinho, sabíamos que era sério. Parávamos, marcávamos carreira e passávamos por ela feito um furacão, sentido só a pontinha do galho em nossa pele enquanto ouvíamos mamãe dizer “passa! Deixe de ser maluvida [mal-ouvida, que não dá atenção aos chamados].

Maria Cleonice com seus 11 filhos, marido, primeiro genro e seus
pais, na comemoração dos meus 15 anos
Maria Cleonice sofreu com traições e com machismo. Não foi autorizada a tomar pílula, quando ela chegou ao Brasil, na década de 1960. Se tivesse tomado, talvez minhas cinco irmãs mais novas não tivessem nascido. Certa vez, em uma das nossas conversas, mamãe disse que foi burra em ter tanto filho. Perguntei quais ela teria escolhido, caso Deus permitisse voltar no tempo. “Agora que tenho todos não teria como escolher. Amo a todos”, disse ela, concordando comigo que, assim, não valia a pena se lamentar pelos caminhos já percorridos.

Mamãe não podia estudar. Parou no equivalente à segunda série. Primeiro, vovô Zezinho a proibiu, pois já estava ficando mocinha e tinha que ir da roça pra Vila. Era muito perigoso pois poderia se encantar por alguém e namorar. Depois, tinha muitos filhos e papai não a deixava sair nem ter amigas. As saídas eram para a feira, supermercado, consultas médicas e missa aos domingos pela manhã. O medo a paralisou até depois da separação e muito tempo depois. Achava que era velha, que os colegas mais iam rir dela. Mas melhorou sua leitura devorando livros, principalmente os romances espíritas.

Minha primeira Maria e eu
Com a descoberta que papai tinha engravidado uma mulher jovem, em 1976, a primeira Maria, a Cleonice, quase enlouqueceu. Por anos a fio tomou remédio para dormir e alimentou ódio. Mas uns 20 anos depois venceu a dependência dos remédios e se permitiu perdoar papai e a mulher. Garantia viver mais leve, dividindo seu tempo entre Paulo Afonso – onde estava parte de seus amores, Recife – onde estavam dois filhos e seus médicos, e Salvador, onde comemorava seu aniversário em 16 de dezembro e o Natal comigo e mais duas Marias.

A impressão que eu tinha de Maria Cleonice teve duas fases. Até os 20 anos a via como uma mulher frágil, submissa, dependente. Jurei que não queria isso para mim. Que nunca dependeria de homem algum. Teria minha profissão. Assim fiz. Adulta, pude enxergar a mulher forte em mamãe. A que teve 11 filhos, cuidou de todos, aprendeu a demonstrar carinho e teve a serenidade, sabedoria e coragem de perdoar. Não sei se já sou capaz disso tudo. Em agosto deste ano de 2020 fará seis anos que passou ao outro lado do caminho e continua me inspirando em sabedoria e tolerância.

Família de Maria de Fátima
Maria de Fátima Siqueira Amorim – a segunda. Leonina de 1º de agosto. Primogênita, foi o primeiro amor filial de papai. E pagou o preço com um ciúme intenso. Foi a segunda mãe de todos nós, principalmente de Kátia Luciana, que tinha apenas 4 anos quando a primeira Maria quase pirou em sua dor. Casou aos 20 anos. Em abril foi o casamento civil, mas só pode viver com o marido em junho, após o casamento religioso. Papai não deixou.  Tinha que ter a benção de Deus. Foi mãe de uma menina aos 23. Menos de quatro anos depois veio um menino. Não seguiu os passos da primeira Maria. Trabalhou, fez faculdade de Pedagogia depois que os filhos cresceram, continua trabalhando (na UNEB-Paulo Afonso) e limitou a maternidade a apenas dois filhos. Escrevia poesia e poemas. O ritmo da vida talvez tenha freado a veia poética. Uma neta e um neto dividem sua atenção. Tornou-se grande amiga de mamãe.

Maria da Vitória Amorim– a terceira Maria e segunda filha. Pisciana de 9 de março. Exigiu muita atenção na infância por ter a saúde frágil. Cresceu voluntariosa. Determinada. Saiu de Paulo Afonso para Recife aos 20 anos, mesmo contra a vontade do nosso pai. Ouvi-lo dizer que ele não a ajudaria financeiramente na nova caminhada não a intimidou. “Tenho braços pra que? ”, respondeu de nariz empinado e olhos verdes faiscantes. Não fez faculdade. “Tem curso pra ser escritora? ”, questionava. 

Família de Maria da Vitória
Como a primeira irmã, escrevia poesias e poemas e não tem novas produções. Também trabalha a área de educação (Faculdade São Miguel – Recife). Tem dois filhos homens; o primeiro nasceu quando tinha 28 anos. Nunca quis formalizar a união com o companheiro e pais dos meninos (ops, homens). Papai não conseguiu obrigar a casar na lei dos homens e na lei de Deus. Não seguiu a primeira Maria no número de filhos. Tampouco na submissão ao companheiro. Na convivência com Maria Cleonice no Recife, os papéis foram se invertendo ao longo dos anos. Passou, praticamente, de filha a mãe.


Vânia Maria Amorim dos Santos – a quarta Maria e quarta filha de mamãe e papai. Escorpiana de 24 de outubro. Morena, olhos verdes de esmeralda, tímida, mas que nunca leva desaforo para casa, desde menina. Era atleta, velocista campeã no colégio da Chesf, em Paulo Afonso. Ao receber uma negativa do colégio para a liberação para um tratamento no Recife, decidiu que não ia mais estudar nesse colégio e nem contribuir para que ele acumulasse troféus a sua custa. Como todas nós, apaixonada por papai, nosso galego dos olhos azuis que retornou ao lar espiritual em junho de 2017. A traição dele marcou esta Maria profundamente. Ao contrário de mamãe, ainda não aprendeu a abrir o coração e a alma para o perdão.

Família de Vânia Maria
Vânia, a neta Beatriz e o neto Eduardo
Esta é a Maria que mais parece com a primeira, principalmente a da primeira fase; na cor da pele e no comportamento apaixonado e passional. Ama intensamente, mas nem sempre consegue demonstrar. Sofre só. Diz que só teve o primeiro abraço de papai quando casou. Não percebeu que nosso pai não tinha iniciativas de carinho. Apenas retribuía. 

Retomou a vida intelectual depois 50 anos, com as três filhas adultas e o primeiro neto já no convívio. Mas sempre foi empreendedora e compartilhou com o marido o trabalho de um estúdio de música e de outros serviços. Com duas graduações e duas pós-graduações, procura contribuir com adolescentes e jovens das escolas públicas de São Paulo, como professora. Hoje se alimenta também do amor pelos três netos.

Mirian Cavalcante Amorim Falcão – A alegria nasceu com ela. Faz parte da turma que veio depois de mim. É a primeira Não Maria do grupo. Escorpiana de 6 de novembro. Autoestima no topo. A primeira Maria, que a pariu em casa, dizia que não entendia porque ficava tão emocionada ao encontrar com ela. Ô... Mirian veio ao mundo numa conversa direta com ela, sem médico ou parteira intermediando. Ligação direta de mil graus. 

Sempre quis viver tudo intensamente. E assim, na adolescência, desistiu dos estudos e enfrentou a maternidade, sem o apoio do pai do filho, aos 16 anos. O apoio foi da família. Aos 19, com novo amor, veio o segundo filho. E amargou a decepção de mais uma fuga de quem acreditava que lhe dedicasse amor. Mas seguiu em frente.

Familia de Mirian
Finalmente, alguns anos depois, encontrou um amor sincero e leal. Com ele casou, de papel passado e a benção de Deus. Dessa união veio uma menina. Também na maturidade, já com uma neta e dois netos adolescentes, retomou os estudos, fez graduação e pós-graduação na área de Educação e hoje é professora, em Alagoas. Sua vida segue em Piranhas, naquele estado. Como a quarta Maria, não leva desaforo para casa. Fala o que tem pra falar na lata. Vive sem medo de ser feliz.

Ana Maria
Ana Maria AmorimDelicadeza poderia ser o seu nome. A mais dengosa de todas. Canceriana de 24 de junho. É a sexta Maria e a oitava filha da primeira Maria. Chegou abençoada pela fumaça das fogueiras em homenagem a São João. Ginasta no início na puberdade e jogadora de vôlei na adolescência. Mas os caminhos seguidos na busca da independência a afastaram do esporte. As lutas diárias também a afastaram de um diploma de nível superior, que busca corrigir agora, na maturidade. Enfrenta com preocupação, mas com paciência e fé, o desemprego em Salvador. Sua área de atuação é na administração financeira, com larga experiência. Como a segunda Maria, a da Vitória, não formalizou a união de décadas. Ensaiou alguns poemas na adolescência e juventude. Ama crianças, mas não conseguiu realizar o seu sonho de ser mãe.  

Maria Aparecida
Maria Aparecida Amorim -  Sensível, amorosa, mais brigona como eu. Ama intensamente e defende com unhas e dentes a quem ama. Canceriana de 29 de junho. A fumaça que a trouxe foi a mesma das fogueiras em homenagem a São Pedro e a São Paulo. Também foi ginasta na puberdade, em Paulo Afonso. Mas seguiu outro caminho. Como tem o dom de cuidar, sua profissão não poderia ser outra: enfermeira. Residente em Salvador, esta Maria não tem filhos, tal qual a Maria anterior. Sua união de décadas não foi registrada em cartórios ou igreja. É mais um amor, como tantos no mundo, que tem as bênçãos da espiritualidade.

Família de Vera Lúcia
Vera Lúcia Amorim da Silva– Delicada, mas forte. Prefere a paz de espírito a ter que se desgastar com uma briga familiar. Da sua boca raramente se ouve uma queixa pelas lutas enfrentadas diariamente. Virginiana de 3 de setembro. Esta é a segunda Não Maria do grupo gerado pela primeira Maria. Determinada, fez faculdade após os dois filhos estarem adolescentes. Primeiro Serviço Social. Depois, Pedagogia. Enquanto não consegue um espaço dentro das suas formações, dedica-se ao trabalho em uma escola de ensino fundamental e médio em Paulo Afonso. Foi a que mais conviveu com mamãe. Moravam na mesma casa. Ambas compartilhavam da mesma fé em Maria, mãe de Jesus. Uma fé inabalável que a faz seguir sempre em frente, buscando e acreditando em dias 
melhores.

Família de Kátia Luciana
Kátia Luciana Amorim Nunes– Terceira Não Maria e a derradeira do grupo de 11 filhos da primeira Maria – a Cleonice. Chegou chegando. Sua alegria sempre foi contagiante. Abandonou os estudos no Ensino Médio após engravidar do seu primeiro filho, que teve aos 17 anos. Fez a opção de ser mãe em tempo integral. Depois teve uma menina, que agora é adulta e carrega no ventre a/o primeira/o neta/o. Amorosa, mas protetora como uma leoa.  Depois de adulta concluiu o Ensino Médio com muita determinação. Transmite seu amor de várias formas. A comida é uma delas. Cozinha com alegria e prazer. A música e dança é outra forma. Nunca fez curso na área da saúde, mas é uma cuidadora habilidosa, delicada e atenciosa. Provavelmente foi enfermeira em outra encarnação.


Fazer auto descrição nem sempre traduz o que somos. Por isso aguardo as minhas Marias e Não Marias a deixarem uma breve descrição nos comentários sobre como me veem.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

São Francisco é a inspiração para me livrar de mágoas

Será que somos capazes, mesmo, de fazer exatamente o que pede São Francisco de Assis em sua prece? Você não conhece? Talvez pense que não, mas acho que conhece. Ela diz assim:

"Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvida, que eu leve a fé..."


Sempre achei, no alto da minha presunção, vaidade e orgulho, que eu era, sim, capaz de ser parte dessa oração. Sei, e quem está ao meu redor sabe, que realmente procurei, durante anos, levar amor onde havia ódio, perdoar ofensas, buscar a união e alimentar a fé. Assim fiz para a construção da minha família com o meu amor. Também o fiz para a reconstrução e harmonia da grande família construída por meu pai.


Fiz isso por quase uma década, inspirada pelo exemplo de amor e perdão dado por minha mãe. Procurei me aproximar e trazer juntos quase todos, com carinho e atenção. Mas alguma coisa não fiz direito. mesmo pedindo e procurando fazer o que diz ainda São Francisco:

"Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz."

Com a passagem da minha mãe ao outro lado do caminho, em agosto de 2014, algo se quebrou. Não sei se em mim ou se em cada um dos que fazem parte da grande família do meu pai. Tal qual o vento, muitas palavras foram ditas, ouvidas e interpretadas de formas diferentes por cada um. Muitas ações atingiram diferentemente um a um, deixando marcas indesejadas

Tranquei lágrimas. Contive palavras. Silenciei. E aí tive que confessar a mim mesma que eu era fraca. Ou seria frágil a palavra correta? Deixei a tristeza e a mágoa ocupar um espaço em meu coração. Mas busquei vencer. A saudade era maior. Lamentavelmente, nada mais estava como antes. Nem mesmo conseguia mais falar com meu pai todos os dias, ou ao menos em qualquer dia que eu quisesse ouvir a voz dele. Seu celular estava sempre desligado. Ele não sabia. Estava literalmente cego.

Eu continuei fingindo que estava tudo bem.Que não alimentaria sentimentos negativos. O bate-papo virou semanal, aos sábados. E era o melhor momento da semana para mim. Até que foi interrompido em junho deste ano (2017), pois papai precisou seguir para o outro lado do caminho. Mais lágrimas, mais saudade, mais silêncio.

Quarta-feira, 4 de outubro, foi comemorado o Dia de São Francisco de Assis. Um santo íntimo, digamos assim, pois foi em sua novena que comecei a namorar Roberto, um bocado de anos atrás. Mas também foi o dia que marcou quatro meses da despedida de papai. Lembrei dos dois e fiquei muito triste. De saudade e pela constatação que ainda sentia martelar no peito uma mágoa que não gosto de sentir.

No caminho de casa, dirigindo, não liguei para nenhum dos muitos irmãos, como sempre faço. Nem mesmo para uma amiga querida que digo ser uma filha de outra encarnação. Preferi cantar a oração de São Francisco para me encontrar e me fortalecer. Disse com força para tornar verdade dentro de mim a última parte da oração:

"Ó Mestre, Fazei que eu procure mais, consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna".

Em casa, também nada conversei com meu amor. Só eu e Deus. Estava envergonhada de ainda ter esse sentimento dentro de mim.

Antes do dia 4 acabar, recebi a mensagem de que a vida prossegue e que cada dia é a esperança de novos tempos, que deve prevalecer o amor e a luz. Sabe como? Antes de desconectar o celular sempre olho as mensagens da minha família. Pouco faltava para a meia-noite e quando vi que uma nova vida se concretizou na família.

Havia nascido, logo depois das 22 horas, a pequena Beatriz, minha sobrinha-neta, filha de @Vanessa Patrício Amorim. A segunda Beatriz na família. E a segunda a nascer no dia de São Francisco, compartilhando aniversário com a tia @Vany, minha sobrinha. Pedi perdão a Deus e dormi mais leve.

Vou continuar tendo essa oração como inspiração, embora saiba que a caminhada é longa. Só não precisa ser muito longa. Vou tentar de novo. Vou fazer a parte que me cabe. Sei que conseguirei, em breve, dizer "Xô, mágoa! Você não me pertence!"

E você? Consegue seguir alguma parte da Oração de São Francisco (de Assis)? Fique à vontade para contar.




quarta-feira, 19 de julho de 2017

Tenho um amor que estava escrito nas estrelas

Quem não tem uma religião ou professa uma fé pode até achar piegas ou presunçoso dizer "Sou uma pessoa abençoada ". Mas, como não ligo muito para o que as pessoas possam pensar, reafirmo para mim mesma que sou, de fato, uma pessoa abençoada. 

Hoje, acordei feliz, como na maioria dos meus dias. Dormi e acordei bem, aconchegada ao lado de alguém que parece fazer parte da minha vida desde sempre. Alguns já me disseram que desde outras vida. E não duvido. Pra quê, se ter essa impressão ou informação só aumenta a minha certeza que o nosso amor estava escrito desde sempre?

Hoje, 19 de julho, comemoro oficialmente duas datas importantes: a do nascimento e a da formalização do casamento com Roberto. Digo oficialmente porque tenho datas duplicadas. Vai ver que é porque gosto de celebrar a vida e me afirmo como aberta à felicidade. 

Nasci dia 17 de julho, mas meu pai, Seu Nilton, ao me registrar acabou colocando dia 19. E recebo abraços nos dois dias. Ninguém chega atrasado. Já no casamento, formalizamos no cartório no dia 19 e recebemos as bênçãos, através de uma cerimônia mística (uma adaptação do casamento Wicca), no dia 20.

Sobre inaugurar um motor 5.5 digo que é uma honra e uma dádiva. Mesmo que eu esteja quase 20 quilos acima do meu peso ideal. Mesmo que não possa mais falar e abraçar pessoalmente a minha querida Nicinha Amorim e meu querido Nilton Cavalcante Amorim, que foram chamados para o outro lado do caminho. Ela, há 2 anos, 11 meses e 19 dias. Ele, há 1 mês e 15 dias. 

Mas tenho 10 irmãos vindos do amor de Nilton e Nicinha, e mais seis irmãos do segundo casamento de papai. Tenho um monte de sobrinhos, outro tanto de sobrinhos-netos, cunhados e cunhadas queridos. 

E, muito importante, tenho Roberto, meu filho do coração Acácio e a filha do coração Bruna, sua esposa. Ela, a nora, garante que tenho neta canina, Vicky, embora meu amor pela cadelinha não a transforme em neta.

Mas é sobre as bodas de casamento que gosto de falar. Dizem que 15 anos é de Cristal. Que quem chega a isso tem uma relação sólida.  Mas, pra não esquecer que sou múltipla, tem a boda de 23 anos de reencontro (também neste mês), que não sei que nome leva, e a de 40 anos do primeiro beijo e primeiro namoro. Como essa será em outubro, procurarei seu nome lá pra frente. E ter tantos anos de história com alguém é uma grande dádiva, né não?

Para muita gente, até para você que o conhece, meu amor pode não ser um cara bonito. Tem características físicas comuns do Recôncavo baiano (sua mãe, dona Alaíde, era de Santo Amaro). 

Mas, mesmo assim o acho um gato. O meu gato. Não o gato no sentido de lindo. Mas o gato no sentido de gostar de se enroscar, de gostar do contato das nossas peles, de compartilhar sentimentos e sensações. 

De gostar de assistir um filme abraçado a mim. De gostar de caminhar de mãos dadas. De gostar de dormir de conchinha mesmo depois de tantos anos lado a lado.

Somos diferentes. Muito diferentes. Sou mais comunicativa que ele (tagarela mesmo, confesso). 

Gosto de me exercitar durante o dia (desde que a preguiça não bata). Ele prefere o anoitecer. Gosto de festa à noite, para poder colocar velas e me arrumar. Ele, durante o dia, pra ficar de bermuda e chinelo. 

Adoro ler. Ele, nem tanto. Adoro dançar. Ele se permite o forró pra me agradar. Nas reformas em casa, então, somos muito diferente e discutimos muito, mas no final conseguimos chegar a um acordo.

Mas também somos iguais. Bem iguais. 

Adoramos viajar (ele planeja e organiza tudo e eu o sigo). Adoramos receber os amigos. Curtimos nos abraçar ao acordar, ao nos encontrar na cozinha para o café, ao sair para o trabalho e ao retornar para casa ( isso nos dá uma energia forte e do bem para o dia todo). A terapia do abraço é uma constante em nossos dias. 

Gostamos de cuidar da casa e de depois sentar para relaxar com uma cervejinha gelada. Curtimos assistir filmes juntinhos, mesmo que ele durma antes da metade.


Inaugurar motor 5.5 ao lado de Roberto, que em setembro inaugurará seu motor 6.0, numa celebração de tantos anos de convivência é ter a comemorar. Principalmente em tempos em que as pessoas não têm  paciência uma com a outra, em que tolerância é palavra desconhecida do vocabulário dos casais e em que a paixão meteórica é cantada amplamente nos sucessos sertanejos como se fosse amor. 

Não. Amor que faz sofrer não é amor.

De tempos em tempos digo a Roberto o quanto o amo. "Já disse hoje que te amo", brinco. Ele sempre responde que não, com um sorriso leve no rosto, só pra me deixar declarar o meu amor. 

Literalmente ele nunca disse me amar em todos esses anos. Já fez como no filme Ghost: "idem". Isso não me incomoda nem me deixa insegura ou desconfiada, porque todos os dias ele diz me amar, com atitudes. 

Diz isso ao me acordar com um abraço, ao preparar nosso café da manhã, ao perguntar o que quero comer nos finais de semana, ao saber (isso mais recentemente, mas muito bem sabido) me presentear com sapatos que amo e me surpreender com uma linda orquídea em complemento a um presente, como fez hoje. 

Diz também ao me receber com um abraço todos os dias no jardim das nossa casa quando chego cansada depois de um longo dia dedicado ao trabalho. 

Também demonstra seu amor ao ficar ao meu lado, em silêncio, quando me vê triste e silenciosa, sem querer conversar. E diz, ainda, quando acordo nostálgica e meto música clássica na casa (embora ele não curta muito). 
Então, como já disse Tetê Espínola, "Signo do destino, que surpresa ele nos preparou, meu amor, nosso amor estava escrito nas estrelas, tava, sim". 

Sou abençoada, sei disso, e agradeço a Deus todos os dias por ter minha grande família e minha pequena família. Mas também peço a Deus sabedoria diariamente para continuar alimentando esse amor que me faz forte e feliz.

Sabe o que peço também a Deus? Que ilumine cada um de vocês para que se permitam a um amor assim: companheiro, cúmplice, atencioso, leal. 

Acredite: o amor é possível!

Você tem um amor? Conte pra gente.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Nilton Amorim:"O trabalho edifica o homem e o estudo alimenta a mente".



Era uma vez um jovem sertanejo, que labutava na roça com seus irmãos e pai na zona rural de Cacimbinhas, Alagoas, mas sonhava com um algo mais. 

Aos 17 anos, soube que a Companhia Hidroelétrica de Paulo Afonso - Chesf iria construir uma hidroelétrica em Forquilha, Bahia. Decidiu, então, seguir os passos do irmão mais velho e foi atrás do emprego.

Assim começa, na Bahia, a história de Nilton Cavalcante Amorim, meu pai. Nascido em 12 de agosto de 1933, Riacho do Mel, um sitio em Palmeiras dos Índios, Nilton foi o segundo dos 10 filhos de Floriza Cavalcante Amorim e João Braz Amorim, agricultores. Ela, de Pernambuco. Ele, de Alagoas. 

Sua infância e adolescência foram vividas entre os povoados Mata Burro, Tingui e Lagoa do Boi, na árdua lida com roças e secas intermitentes. Nem mesmo tinha acesso regular à escola, tamanha a dificuldade enfrentada, comum às famílias no sertão.

O irmão mais velho, Manoel Cavalcante Amorim, já tinha seguido para Forquilha e Nilton decidiu repetir seus passos. Partiu para Forquilha, na Bahia, bem na divisa com o seu estado natal. Foi determinado a conseguir uma vaga na Companhia. Acreditava que era a sua chance de conquistar uma vida melhor. 

Em 7 de outubro de 1950 chegou a Forquilha, no Município de Glória, Nordeste da Bahia, que posteriormente passou a ser conhecida como Paulo Afonso, cidade que abriga cinco hidroelétricas.

Como Nilton, milhares de homens – alguns mais jovens, outros, mais velhos – tinham na Chesf a oportunidade de ter um emprego e renda para alimentar a si e à sua família. A disputa era grande. Chegavam aos montes homens de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e até mesmo de outras áreas da Bahia. O trabalho era braçal, mas isso não lhe intimidava. Quem cuidava da roça já estava acostumado. 

O problema para Nilton Cavalcante Amorim era seu tipo físico: franzino, pouco mais de 1,60 m. Também era problema a sua idade – 17 anos. Para trabalhar tinha que ter 18. Para ser escolhido junto a uma multidão, Nilton ficou na ponta dos pés. 

Para ser contratado, disse que tinha 18 anos. Prova não tinha. Só sua palavra. Naquele tempo não se exigia documentos. Aliás, nem todas as pessoas tinham registro de nascimento ou outro documento de identidade. E assim foi escolhido na presença do engenheiro Apolônio Sales (primeiro presidente da Chesf) com mais um batalhão de peões.

Operário
 
Sua experiência na Chesf começou em 16 de outubro de 1950 como trabalhador braçal na construção da barragem para implantação das usinas Paulo Afonso I, II e III. Sua primeira matrícula foi 304. 

Nilton contava que depois de um dia de trabalho duro estava tão cansado que não tinha ânimo para estudar. Tampouco tinha incentivo de quem quer que fosse. Até ali tinha só até a 4ª série.

Junto com o irmão Manoel, morou no alojamento da Chesf, na área dos antigos galpões, perto do lago que depois viraria o balneário. Dividia o espaço em redes com quase uma centena de outros trabalhadores. 

Por considerar inseguro, vez que não tinham armários para guarda dos seus pertences, Nilton e o irmão resolveram alugar um canto na Vila Poty.

Ao final do primeiro ano de trabalho na Chesf, Nilton Amorim, o galeguinho dos olhos azuis, como muitos colegas o chamavam, passou a trabalhar na montagem da subestação. A atividade, além de menos cansativa que a anterior, despertou a necessidade e o interesse em estudar. 

Juntou-se a outros trabalhadores e contrataram um professor para prepará-los para o exame de madureza (de acordo com o artigo 99, e seu parágrafo único da Lei 4.024, de 20 de dezembro de 1961 (equivalente ao atual Supletivo)). Aprovado, pode iniciar o 1º ano colegial (Administração de Empresas) Colégio Sete de Setembro.

Por um período ocupou a função de telefonista, mas retornou logo para a montagem. Quando a montagem mecânica da subestação acabou, Nilton Amorim passou a trabalhar na instalação elétrica da usina, que foi inaugurada em 1955.

Iniciando a família
 
Nesse mesmo ano nasceu sua primogênita, Maria de Fátima, fruto do seu casamento (em 1954) com Maria Cleonice Galindo Melo, imigrante de Pesqueira (PE). 

Nesta época morava nas casas tipo O, perto da Escola Adozindo Magalhães de Oliveira. A partir daí passou a trabalhar como eletricista na parte da operação da Usina Paulo Afonso I, onde atuou por seis anos. 

Depois da casa perto do Adozinho, Nilton e a família foram morar nos galpões, perto de onde ele já tinha morado assim que entrou na Chesf. Menos de um ano depois ganhou o direito de morar em uma casa maior, na Rua L (atual Rua das Camélias), 96.

Com ambição de crescer profissionalmente, decidiu fazer no Instituto Monitor, pioneiro em educação à distância no Brasil, os cursos de Rádio e Televisão, e Eletrônica. 

Também começou a estudar Inglês com o professor Aquino, que era o chefe dos Correios naquela época, em aulas particulares. Para isso, adquiriu um gravador de áudio com fita de rolo, onde estudava diariamente na sua oficina, em nossa casa.


Com o certificado de técnico em Eletrônica e em Rádio e Televisão em mãos, em 1961, Nilton Amorim pediu para trabalhar no setor de Eletrônica da CHESF. Com orgulho lembro que meu pai instalou o sistema de som da Escola Adozindo Magalhães de Oliveira, onde todos os dias ouvíamos e cantávamos a oração de São Francisco. 

História da comunicação
 
Em 1962 (ano em que nasci), começou a contribuir para que os pauloafonsinos e moradores das cidades circunvizinhas de Alagoas e Pernambuco tivessem acesso à transmissão do sinal de televisão.

Sua história se entrelaça com a história da Chesf, com a história de Paulo Afonso e a história da televisão e da comunicação em Paulo Afonso e região. 

A história da Comunicação em Paulo Afonso passa diretamente pela história deste técnico em telecomunicações, Nilton Cavalcante Amorim. 

Em grande parte das quatro décadas que trabalhou na Companhia Hidroelétrica de Paulo Afonso foi um dos principais responsáveis pela implantação do sinal de televisão no município e em outros municípios vizinhos da Bahia, Pernambuco e Alagoas.
Não lembro de todos. Da esquerda para direita: Araújo, (...),(...), papai, Hans e Hermes

Naquele ano a Chesf deu início à repetição do sinal de televisão com um equipamento “caseiro” feito por Nilton Amorim e outros técnicos no laboratório de Eletrônica da empresa. Na Serra da Maravilha (AL), a equipe teve que subir a pé com os equipamentos e material para instalação da torre de transmissão. 

Anos depois a Chesf fez a estrada, facilitando o trabalho de manutenção. Foram instaladas por Nilton Amorim e colegas repetidoras em Paulo Afonso (na antiga Fazenda Chesf), Maravilha, Água Branca e Prata (AL), Garanhuns e Itaparica (PE).
Em 1964, aos 31 anos, Nilton Amorim assumiu a chefia do Laboratório de Eletrônica da Chesf

Dali ele supervisionava o trabalho de pesquisa de sinal das emissoras, o pedido de aquisição de equipamentos (feitos ao Rio de Janeiro), a instalação das torres e linhas de energia e dava manutenção às repetidoras de televisão. 

Nessa época convivíamos constantemente com alguns dos seus amigos, a exemplo de Gérson Campeão, Moacy e Seu João da repetidora (da Fazenda Chesf).

Edson Siqueira, operador de subestação e posteriormente operador de Sistema da Chesf, disse que sempre admirou Nilton Amorim: “Excelente técnico, muito inteligente e reconhecido em todo o Nordeste”. Ele conta que ao chegar a Goianinha (PE), onde a Chesf tinha uma importante subestação de distribuição de linhas, Nilton Amorim já era citado como uma das maiores autoridades em telecomunicação da Chesf.

Sinal de Televisão

Na década de 1970 o sinal de TV já chegava a muitas casas. Mas não em todas. Era comum a televisão solidária, onde os vizinhos assistiam novelas e programas no domingo à noite na casa de quem tinha a TV. 

Em nossa casa era uma Telefunken preto e branco, compartilhada com todos os vizinhos, que enchiam a sala e a ária (terraço ou varanda). 

Muitas mulheres xingavam Nilton sem nem mesmo conhecê-lo. É que nos horários das novelas era comum a sua voz interromper a programação enquanto se comunicava com a torre repetidora. Em todos os aparelhos da cidade, acompanhado de chuvisco na imagem, ouvia-se o “alô maravilha, serra da maravilha, câmbio”. Se fosse em final de novela, então... 

Às vezes achavam que era de propósito, mas ele garantia à família e amigos que não; apenas tentava resolver problemas na transmissão do sinal.

Formatura de Administração de Empresas
Educação

Em seu aprimoramento no saber, Nilton Cavalcante Amorim, além de cursar Administração de Empresas, também cursou Contabilidade no Colégio Sete de setembro. 

Como técnico em Telecomunicações chegou ao nível funcional mais alto possível dentro da Chesf - auxiliar de Engenharia III. Dali, só engenheiro. 

Infelizmente, na década de 1980 não havia o atual acesso aos cursos de nível superior nas cidades do interior. Para cursar Engenharia naquele período teria que morar no Recife, capital pernambucana onde estava instalada a sede da Companhia. 

Isso seria muito
Eu e meu pai na formatura de Contabilidade
difícil sem os subsídios que a
Chesf dava aos funcionários em Paulo Afonso, como residência, água, luz, escola e assistência à saúde. Tudo gratuitamente.

Viver fora da Chesf seria muito difícil com tantas bocas para alimentar, corpos para vestir e mentes para educar. 

Em Paulo Afonso era muito mais que isso, pois sempre tinha um irmão, sobrinho ou um cunhado a abrigar. Também tinha iniciado uma nova família com Maria da Luz Rocha, natural de Maravilha.

Aposentadoria e empreendedorismo

Nilton Cavalcante Amorim permaneceu chefiando o Laboratório de Eletrônica, que depois passou a Laboratório de Telecomunicações, até aposentar-se com 41 anos e 5 meses de trabalho, aos 58 anos e 5 meses de idade.  

Na época, o tempo máximo de serviço era 35 anos. Quando se afastou, ou melhor, foi afastado a contragosto porque queria continuar seu serviço na Chesf, o funcionamento das repetidoras já estava mais estabilizado, uma vez que a Chesf entregara a repetição para as empresas geradoras, a exemplo da Detelpe (Recife-PE), Gazeta de Alagoas, SBT e Globo, na Bahia.

Com a aposentadoria, Nilton Amorim, que já tinha uma oficina eletrônica em sua residência, se tornou um empreendedor. 

Abriu a Eletrônica e Papelaria Amorim, empresa familiar, na Travessa José Firmino Lins com a Rua Pedro Mendes. Pouco tempo depois abriu uma fábrica familiar de móveis tubulares – a Metal & Cia, na Rua Presidente Médici com a Rua Alto Nova. Alguns anos depois decidiu fechar a Metal & Cia e transferiu para este imóvel a eletrônica.

Desde a sua aposentadoria trabalhou diariamente, de segunda a sábado, mesmo que partir de 2005 não contasse com a mesma visão que o fez conhecer cada circuito e componentes eletrônicos de rádio e televisão. 

A cegueira, que começou a alcançá-lo a partir de 2015, o impediu de conhecer internamente os aparelhos digitais. Mas havia poucos técnicos com tanto conhecimento como ele nos aparelhos eletroeletrônicos analógicos.

Registro feito na Eletrônica Amorim em janeiro de 2013, já cego
Duas famílias

Sua família foi ampliada com mais seis filhos, desta vez com a sua companheira e, a partir de 2015, esposa legalmente, Maria da Luz Rocha – Delma. São 17 filhos, 29 netos e sete bisnetos. Todos vivos. Além disso, já são esperados até o final do ano de 2017, mais um neto (ou neta) e mais uma bisneta.

Em 4 de junho de 2017, apenas três meses antes de completar 84 anos, Nilton Cavalcante Amorim retornou ao plano espiritual. 

Deixou como legado o ensinamento de que filho é para toda a vida; Deixou a ética, a responsabilidade, a honestidade e que o trabalho edifica o homem e o estudo alimenta a mente. 


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

CARTA AO CÉU - Parabéns é para quem você ama

Oi, mamãe

Desculpe ter passado tanto tempo sem escrever para você. Aliás, há muito tempo não escrevo para as pessoas também.

Sabe, passei a semana passada ansiosa, na expectativa da sua chegada para celebramos o seu aniversário na quarta-feira, 16 de dezembro. Afinal, sempre era por volta do dia 13 que você vinha para Salvador da sua temporada no Recife, para comemorarmos sua nova idade junto com a querida maluquinha Iolanda e para o Natal. Ansiedade igual ficaram minhas irmãs, cada uma em suas casas e do jeito delas, no desejo de lhe abraçar, de lhe desejar saúde e paz, de agradecer por nos ter recebido como filhas.

Sei que muita gente não entende porque agimos assim. Afinal, você retornou ao lar espiritual há 1 ano, 4 meses e 16 dias. Mas fazemos isso por um motivo simples: sabemos que você vive.  Que você está viva e conectada conosco através do amor imenso que sentimos.

Procurei tornar mais fina a sintonia entre nós duas desde os primeiros minutos do dia que marca a sua chegada aqui nessa dimensão para sua última encarnação. Fiz minhas preces e emanei todo o amor e gratidão que tenho por você, mariquinha. Pedi a Deus a oportunidade de abraçá-la em sonho e lembrar desse encontro e desse abraço.

Ao acordar, procurei me vestir com a sua cor preferida. Coloquei vestido e sapato azuis, que contrastaram com meu cabelo vermelho (venho mantendo essa cor, que você tanto gostou e que realça os meus olhos esverdeados). Roberto perguntou para onde eu ia vestida assim. Pensou que tinha alguma coisa especial no trabalho. Eu respondi que tinha me arrumado pelo seu aniversário e que à noite iria com Cida para a missa na Igreja Nossa Senhora Aparecida em sua homenagem.

O dia no trabalho teve momentos estressantes e acabei me atrasando. Decidimos, então, que faríamos uma celebração íntima, com um evangelho no lar. Mas eis que a espiritualidade entrou em ação e programou uma missa ao ar livre, sob árvores, no condomínio em que Cida mora, para o horário em que cheguei lá.

Sabe qual música tocava na hora que cheguei? A oração de São Francisco. Perfeito, né? A missa foi linda, com muitas músicas, dedicada a você, mamãe e a outras pessoas e aniversariantes. Acho que nossa emoção foi tanta, assim como a certeza que você adoraria essa missa, que sentimos sua presença ao nosso lado ao cantarmos o Pai Nosso de mãos dadas. Voltamos para o apartamento abraçadas e de coração leve.

Mas aniversário  tem que também ter parabéns, né? Por isso subimos ao apartamento de Cida e lá, junto com Paulo, com um panetone com chocolate (hummmmmm) e uma vela, cantamos parabéns para você, mamãe. Pedimos que Deus lhe dê muita saúde e paz nesse seu caminhar espiritual. Temos certeza que os anjos disseram amém!

Ficamos felizes por ter certeza da conexão de amor. Principalmente por termos ouvido na missa que quando há amor há ligação na terra e no céu. E temos muito amor por você. Parabéns, mamãe. E obrigada por tudo.

P.S. - A saudade é grande, viu, mulher? Mas vamos suprindo com a lembrança de tantos momentos lindos que vivemos, principalmente nesse período. Ah! Esse ano o Natal não será celebrado na minha casa. Como tia Regina está com 102 anos e cansadinha, precisa evitar muitos deslocamentos. Por isso transferimos para a casa das irmãs de Roberto. Como você sabe o caminho... Qualquer coisa é só sintonizar comigo. E nosso encontro de Réveillon será na casa de Tata e Antão. O caminho desta você também conhece. Beijos.

Sua filha tagarela,

Vanda