sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O tempo do jornalista

Como vocês sabem, sou jornalista e moro em Salvador. Aqui, acompanho o conflito vivido pelo meu sindicato - o Sinjorba - e os meus colegas, gerado pela falta de tempo. Tic-tac... tic-tac...tic-tac...

Sempre ouvimos dizer que tempo é questão de prioridade. Não temos tempo de ver amigos mas, se um deles morre, paramos para chorar e sepultá-lo. Não temos tempo de brincar com os filhos e, quando percebemos, eles crescem e lamentamos que eles só querem a rua. Não temos tempo para .... e depois... Cada um pode completar com tantas coisas, tanta justificativa para a falta de tempo.

Nós, jornalistas, reclamamos dos baixos salários e da exploração dos veículos e das assessorias de comunicação; corremos de um emprego ou assessorado para outro, num corre-corre estressante que já levou muitos de nós para o lado espiritual. Não arranjamos tempo para nada, nem para participar de reuniões e dabates importantes para a classe. Mas queremos que o sindicato faça alguma coisa para resolver a nossa situação.

Do lado do sindicato, diretores também correm de um emprego ou asessorado para outro. Não existe mais liberação do profissional para a atividade sindical.

O gerenciamento do tempo, como vemos, é imprescindível. Se não soubermos administrá-lo, priorizando cada coisa a seu tempo, vamos sempre lamentar a ausência do amigo, a infância perdida do filho, a perda dos pais que ficaram distantes e a profissão escolhida por vocação e que nunca fizemos nada para fortalecê-la.

Hoje, por exemplo, arranjei tempo para fazer esse desabafo. Preciso organizar meu tempo para outras ações, inclusive a de lutar pelo respeito à minha profissão.

E você, sabe priorizar o seu tempo? Afinal, como diz a música do Legião Urbana, " todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou.."

Até onde vai sua lealdade?


Depois de assistir ao último filme protagonizado por Will Smith, Sete Vidas, senti martelar dentro de mim a questão da ética pessoal. É ético exigir a lealdade daqueles que nos amam mesmo que para isso essas pessoas tenham que ferir sua própria ética? É ético você, por amor e lealdade, omitir das demais pessoas uma informação que lhe foi confiada sobre um erro que ainda será cometido?

Vivendo um drama pessoal, onde não consegue conviver com a culpa pela morte de sete pessoas, o personagem Ben Thomas faz um pacto com o amigo Dan. O amigo bem que tenta escapar do planejado, mas é cobrado na sua amizade, na sua lealdade. O filme, dirigido por Gabriele Muccino, o mesmo que dirigiu Em busca da felicidade, mexe conosco. Ben tenta compensar as sete vidas perdidas ajudando outras sete vidas, desde que elas mereçam.

Mas meu ponto de confabulação é sobre o pacto de ajuda e de silêncio com o amigo. Tenho o direito de fazer um acordo quase unilateral com alguém que me ama, mesmo sabendo que esta pessoa vai sofrer? É ético ? Fiquei me questionando se eu seria capaz de passar por sobre os meus princípios, sobre os meus sentimentos para ajudar alguém como Dan faz com o amigo Ben Thomas. E não consegui chegar a uma conclusão. Quando acaba o meu direito e começa o de quem amo? Quando acaba o direito de quem amo e começa o meu?

Está sem entender nada? Como não quero dizer detalhes do filme, que estreou em dezembro passado nos cinemas e tem muitas gente que não viu, convido você a assisti-lo e confabular comigo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Falta de respeito

Acabei de lei uma notícia da redação do Yahoo sobre o cantor Michael Jackson e fiquei impressionada com a falta de respeito com este homem. A notícia trata uma doença infecciosa contraída pelo cantor como " escândalo". Diz : " O astro pop que acaba de completar 50 anos protagoniza mais um escândalo. De acordo com o tablóide britânico 'The Sun', Michael Jackson está doente e sofre de uma infecção na pele chamada MRSA (pronuncia-se marsa), que devora pedaços do rosto e é altamente contagiosa. " Alguém adoecer tão gravemente, seja astro ou não, é escândalo ou tragédia?

Fico impressionada, também, sempre que ouço ou leio alguma notícia sobre este homem que se permitiu tantas desventuras acreditando em venturas. A história de Michael Jackson mostra como trazemos para nós consequências muitas vezes danosas por não nos aceitarmos como somos. É certo que cada um sabe onde o sapato lhe aperta e o quanto dói. Mas ele fez sucesso desde menino como o mais brilhante de uma família de negros. Anos depois, a auto-rejeição (Ih! será que caiu o hifen?) o levou a gastar uma fortuna para se tornar branco. Médicos enriquecem para o tornar uma aberração; como pode isso?
Continuo achando que tudo o que nos acontece é por nossa permissão, seja com um sim em alto e bom som ou com o silêncio da omissão. Mas considero que, apesar de todo o mal que Michael Jackson fez a si, a imprensa deveria tratá-lo com mais respeito. Doença não é escândalo; é doença. É essa a liberdade de imprensa que nós jornalistas buscamos? É essa a liberdade que o ser humano busca? De rir da miséria alheia? Sei não, prefiro continuar fora dessa. E você?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Hotel ou universidade?


Hoje, enquanto almoçava na casa de uma das minhas irmãs, Cida, seu companheiro, Paulo, assistia a um dos programas populares na televisão baiana onde a miséria humana é exposta de forma cruel. Os crimes em todas as suas categorias ali são expostos, condenando como culpados, desde o princípio, algumas pessoas que juridicamente são consideradas suspeitas.

Comentei que não gostava de programas deste gênero embora, como jornalista, saiba que é uma face do jornalismo ( se é que podemos chamar assim) muito apreciada pelo povo. Meu cunhado me respondeu que aquilo era a pura realidade. Não discordo, mas não concordo com a humilhação que os " repórteres" fazem com os "entrevistados". Por que só são expostos os "bandidos" pobres? Por que intensificar de forma tão repetitiva cenas de violência - passadas na hora em que a maioria das pessoas almoçam, inclusive. Falei ao meu cunhado de um defensor público da Bahia, Maurício Saporito, que no período em que trabalhava dando assistência jurídica aos presos provisórios ( aqueles que estão nas delegacias), comprou briga com apresentadores e repórteres desses programas porque impedia que os assistidos pela Defensoria fossem expostos como animais.

Quase que ao mesmo tempo, depois de passar uma cena onde vimos imagens escuras de um homem espancando uma mulher idosa para roubá-la, o apresentador do programa faz apologia à pena de morte.

Lembrei-me, então, da reportagem que a TV Globo passou sobre a prisão na Aústria; a nova prisão de lá. Na internet, tem um monte de blogs criticando, considerando um absurdo e coisas assim. Mas são 2 anos de experiência do governo da Áustria na sua aposta para recuperar presidiários de todo o tipo : o presídio de luxo. O Centro Penitenciário de Leoben é a mais moderna e luxuosa cadeia do mundo.


Ali os presidiários tem acesso a uma biblioteca com 30 mil livros, exercitam-se em academia de ginástica com equipamentos modernos e em ginásio de esportes com piso de madeira envernizada. Este hotel prisão fica no alto de uma colina que fica coberta de neve no inverno. Apesar de parecer um belo hotel cinco estrelas, tem muros de concreto e 20 metros de altura. Sobre eles, rolos de arame farpado. Por todo lado, há câmeras de vigilância e guardas de olho 24 horas por dia.

Segundo a reportagem da TV Globo, o Centro Penitenciário de Leoben nasceu baseado no lema de “Punir sem humilhar”. A idéia das autoridades austríacas é tratar os presos com respeito para que eles possam retribuir na mesma moeda dentro dela e, principalmente, do lado de fora, quando voltarem à liberdade. O chefe do sistema penitenciário austríaco explica: “Todos os presos que passam por aqui, sem exceção, se reintegram mais facilmente à sociedade. Por isso nosso lema é 'respeito em troca de respeito'. Se os tratarmos feito animais, um dia soltaremos animais”.

Estarão eles errados? Não creio. Acredito sim, que o nosso atual sistema de execução penal é de uma pena de morte disfarçada. Quem vai preso ou morre na prisão ou morre depois ao sair, seja pela polícia ou por outros bandidos. Não há ações que promovam a recuperação ou a ressocialização.

A maioria de nós que se diz a favor da pena de morte tem essa opinião até que um dos nossos - família ou amigos - caia na desgraça de cometer um delito. Aí vamos buscar nas entrelinhas das leis todas as brechas que possam tirá-lo de lá. Na Aústria, essa prisão é um hotel de luxo. Aqui no Brasil, os nossos presídios e demais unidades carcerárias são universidades do crime.