quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Sou mulher e não gosto de apanhar


Conte 7 segundos. Contou? Nesse momento uma mulher pelo menos foi vítima de um tapa por aquele que deveria lhe dar carinho.

Conte agora 8 segundos. Pronto? Uma mulher pelo menos acabou de ser queimada por seu cônjuge e uma foi ameaçada de espancamento.

Conte de novo; agora por 15 segundos. Tempo fechado: uma mulher está sendo impedida de sair de casa nesse momento e outra foi espancada.

Mais uma vez; agora conte 20 segundos. Nesse intervalo uma mulher foi ameaçada de levar um tiro por um namorado, marido, companheiro, amante ou ex tudo isso.

Esse relógio macabro foi apresentado hoje no final da manhã por Stela Taquele, que representou a ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, na Audiência Pública realizada pela Comissão Especial dos Direitos da Mulher, na Assembléia Legislativa da Bahia. No Brasil, 43% das mulheres já sofreu algum tipo de violência doméstica e familiar.

Tem juiz, por aí, dizendo que mulher gosta de apanhar. Outro diz que o homem é superior e, portanto, pode submeter sua "fêmea" ao que quiser. Que mulher que apanha e não separa é porque gosta de apanhar mesmo.

Agora vamos confabular sobre isso. Tenho consciência que o buraco é mais embaixo. Que a grande maioria das mulheres se submete por um medo maior: seja o de ser assassinada por aquele por quem julgou ser amada algum dia; seja o de recomeçar a vida; seja o de não ter como sobreviver e fazer sobreviver os filho; seja por.... seja por.... são tantos os outros motivos, né mesmo?

Mas creio que é importante que nós, mulheres, acordemos para um fato: esses homens violentos, mau amantes e que se acham donos das suas mulheres foram criados por nós. Durante uma entrevista que fiz em 1996 para o jornal Tribuna da Bahia com Ana Montenegro - advogada, feminista e militante política falecida aos 90 anos, em março de 2006 -, ela me disse que o machismo nunca acabaria, porque a mulher-mãe, em sua maioria, é machista. Concordei com ela e continuo concordando.

Outra coisa: não apenas nós, mulheres, mas também os homens, precisamos acabar com a idéia de que amar é anular-se, é tornar-se um só. Amar é, antes de tudo, amar a si mesmo e depois aos outros. É ter auto-estima suficiente para acreditar na sua capacidade de viver só - se preciso for -, de evoluir intelectualmente, moralmente e espiritualmente. É ter certeza de que tem o direito de ser respeitada; tudo o que nos fazem foi permitido por nós em algum momento. Tá na hora de parar de achar que ciúme é prova de amor. Que violência ocasional pode temperar o tesão. Tá na hora de entender que exigir respeito e preservar a sua individualidade não é egoísmo, não é amar menos.

Não deixe, mulher, acontecer a primeira ameaça, nem o primeiro tapa. Não faça, homem, a primeira ameaça nem dê o primeiro tapa. Enquanto essa transformação não acontece, que a Lei Maria da Penha seja efetivada, já!! É uma grande ajuda para as vítimas e para tentar tratar a violência do agressor.


E a sua opinião, qual é?

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Ética no jornalismo



Já confabulei com vocês, em outra ocasião, sobre a ética e a moral na política. Hoje quero trocar umas idéias sobre a ética e a responsabilidade no jornalismo. Como vocês sabem, sou jornalista por profissão, com pouco mais de 20 anos de estrada. Confesso que, nos últimos anos, tenho ficado assustada com os rumos que o jornalismo - ou a imprensa, ou a mídia - vem tomando.

Na sede de informar, o jornalismo tem colocado a vida de pessoas em risco sem o menor constrangimento por parte do repórter, editor e dono do veículo de comunicação. Começamos pelas reportagens do cotidiano, puxando para a área de segurança: se um novo mecanismo de segurança é implantado em ônibus, por exemplo, os repórteres, com suas canetas ou suas câmeras, esmiúçam os detalhes e dão as dicas de localização de tudo para a sociedade. Todos os detalhes, inclusive os que colocam em risco a vida de cobradores e motoristas.

Sobre o jornalismo praticado pelas revistas semanais nacionais, então, nem se fala. Lembro-me que na segunda semana de setembro, ao ler na Veja a matéria com Bruno Lins - aquele que entregou Renan Calheiros e o ex-sogro Luiz Coelho -, fiquei estupefata. Ao falar sobre como Coelho guardava dinheiro, Diogo Escosteguy, que assina a matéria, não apenas descreve a mansão, mas também a cor, formato e localização do cofre dentro da casa. Nas entrelinhas li assim: " atenção, ladrões, esse cara guarda muito dinheiro dentro de casa e o roteiro é esse. Peguem-no." Um crime compensa o outro? Essa forma de fazer jornalismo é ética? É responsável? Acrescenta o quê à sociedade?

Fiquei indignada, ainda, ao ler matéria do A Tarde, na semana passada, quando uma manchete dizia que uma creche era usada como ponto de droga. No conteúdo na reportagem confiro que a creche, na verdade, já estava desativada há pelo menos cinco meses. Não era, portanto, uma creche, mas uma casa que já abrigou uma creche. Mas, para não perder o impacto sensacionalista, o repórter citou o nome da creche - como se estivesse ativa - e foi corroborado pelo redator no título e na chamada da matéria. Qual o objetivo disso? O que a tal creche que funcionava ali meses atrás tinha com o fato de a casa, que estava vazia, ser utilizada como ponto de uso de drogas? Por que colocar esse estigma sobre uma instituição? Mas uma vez pergunto: é ético esse tipo de jornalismo? É responsável? Acrescenta o quê à sociedade?

O jornalismo tem perdido um dos seus estilos - o principal- que é o que narra e descreve os fatos. Hoje, até os focas deixam de reportar os fatos para emitirem opinião; muitas vezes em textos compostos por escassos vocabulário e conteúdo.

Depois dizem que querem calar a imprensa, que todos têm direito à livre opinião, que isso, que aquilo. E a imprensa - e nós, jornalistas,mesmo os assessores de imprensa - não tem satisfação a dar à sociedade por sua falta de ética e responsabilidade? Por esses e outros motivos quero o conselho de jornalismo. Urgente.