sexta-feira, 6 de outubro de 2017

São Francisco é a inspiração para me livrar de mágoas

Será que somos capazes, mesmo, de fazer exatamente o que pede São Francisco de Assis em sua prece? Você não conhece? Talvez pense que não, mas acho que conhece. Ela diz assim:

"Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvida, que eu leve a fé..."


Sempre achei, no alto da minha presunção, vaidade e orgulho, que eu era, sim, capaz de ser parte dessa oração. Sei, e quem está ao meu redor sabe, que realmente procurei, durante anos, levar amor onde havia ódio, perdoar ofensas, buscar a união e alimentar a fé. Assim fiz para a construção da minha família com o meu amor. Também o fiz para a reconstrução e harmonia da grande família construída por meu pai.


Fiz isso por quase uma década, inspirada pelo exemplo de amor e perdão dado por minha mãe. Procurei me aproximar e trazer juntos quase todos, com carinho e atenção. Mas alguma coisa não fiz direito. mesmo pedindo e procurando fazer o que diz ainda São Francisco:

"Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz."

Com a passagem da minha mãe ao outro lado do caminho, em agosto de 2014, algo se quebrou. Não sei se em mim ou se em cada um dos que fazem parte da grande família do meu pai. Tal qual o vento, muitas palavras foram ditas, ouvidas e interpretadas de formas diferentes por cada um. Muitas ações atingiram diferentemente um a um, deixando marcas indesejadas

Tranquei lágrimas. Contive palavras. Silenciei. E aí tive que confessar a mim mesma que eu era fraca. Ou seria frágil a palavra correta? Deixei a tristeza e a mágoa ocupar um espaço em meu coração. Mas busquei vencer. A saudade era maior. Lamentavelmente, nada mais estava como antes. Nem mesmo conseguia mais falar com meu pai todos os dias, ou ao menos em qualquer dia que eu quisesse ouvir a voz dele. Seu celular estava sempre desligado. Ele não sabia. Estava literalmente cego.

Eu continuei fingindo que estava tudo bem.Que não alimentaria sentimentos negativos. O bate-papo virou semanal, aos sábados. E era o melhor momento da semana para mim. Até que foi interrompido em junho deste ano (2017), pois papai precisou seguir para o outro lado do caminho. Mais lágrimas, mais saudade, mais silêncio.

Quarta-feira, 4 de outubro, foi comemorado o Dia de São Francisco de Assis. Um santo íntimo, digamos assim, pois foi em sua novena que comecei a namorar Roberto, um bocado de anos atrás. Mas também foi o dia que marcou quatro meses da despedida de papai. Lembrei dos dois e fiquei muito triste. De saudade e pela constatação que ainda sentia martelar no peito uma mágoa que não gosto de sentir.

No caminho de casa, dirigindo, não liguei para nenhum dos muitos irmãos, como sempre faço. Nem mesmo para uma amiga querida que digo ser uma filha de outra encarnação. Preferi cantar a oração de São Francisco para me encontrar e me fortalecer. Disse com força para tornar verdade dentro de mim a última parte da oração:

"Ó Mestre, Fazei que eu procure mais, consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna".

Em casa, também nada conversei com meu amor. Só eu e Deus. Estava envergonhada de ainda ter esse sentimento dentro de mim.

Antes do dia 4 acabar, recebi a mensagem de que a vida prossegue e que cada dia é a esperança de novos tempos, que deve prevalecer o amor e a luz. Sabe como? Antes de desconectar o celular sempre olho as mensagens da minha família. Pouco faltava para a meia-noite e quando vi que uma nova vida se concretizou na família.

Havia nascido, logo depois das 22 horas, a pequena Beatriz, minha sobrinha-neta, filha de @Vanessa Patrício Amorim. A segunda Beatriz na família. E a segunda a nascer no dia de São Francisco, compartilhando aniversário com a tia @Vany, minha sobrinha. Pedi perdão a Deus e dormi mais leve.

Vou continuar tendo essa oração como inspiração, embora saiba que a caminhada é longa. Só não precisa ser muito longa. Vou tentar de novo. Vou fazer a parte que me cabe. Sei que conseguirei, em breve, dizer "Xô, mágoa! Você não me pertence!"

E você? Consegue seguir alguma parte da Oração de São Francisco (de Assis)? Fique à vontade para contar.




quarta-feira, 19 de julho de 2017

Tenho um amor que estava escrito nas estrelas

Quem não tem uma religião ou professa uma fé pode até achar piegas ou presunçoso dizer "Sou uma pessoa abençoada ". Mas, como não ligo muito para o que as pessoas possam pensar, reafirmo para mim mesma que sou, de fato, uma pessoa abençoada. 

Hoje, acordei feliz, como na maioria dos meus dias. Dormi e acordei bem, aconchegada ao lado de alguém que parece fazer parte da minha vida desde sempre. Alguns já me disseram que desde outras vida. E não duvido. Pra quê, se ter essa impressão ou informação só aumenta a minha certeza que o nosso amor estava escrito desde sempre?

Hoje, 19 de julho, comemoro oficialmente duas datas importantes: a do nascimento e a da formalização do casamento com Roberto. Digo oficialmente porque tenho datas duplicadas. Vai ver que é porque gosto de celebrar a vida e me afirmo como aberta à felicidade. 

Nasci dia 17 de julho, mas meu pai, Seu Nilton, ao me registrar acabou colocando dia 19. E recebo abraços nos dois dias. Ninguém chega atrasado. Já no casamento, formalizamos no cartório no dia 19 e recebemos as bênçãos, através de uma cerimônia mística (uma adaptação do casamento Wicca), no dia 20.

Sobre inaugurar um motor 5.5 digo que é uma honra e uma dádiva. Mesmo que eu esteja quase 20 quilos acima do meu peso ideal. Mesmo que não possa mais falar e abraçar pessoalmente a minha querida Nicinha Amorim e meu querido Nilton Cavalcante Amorim, que foram chamados para o outro lado do caminho. Ela, há 2 anos, 11 meses e 19 dias. Ele, há 1 mês e 15 dias. 

Mas tenho 10 irmãos vindos do amor de Nilton e Nicinha, e mais seis irmãos do segundo casamento de papai. Tenho um monte de sobrinhos, outro tanto de sobrinhos-netos, cunhados e cunhadas queridos. 

E, muito importante, tenho Roberto, meu filho do coração Acácio e a filha do coração Bruna, sua esposa. Ela, a nora, garante que tenho neta canina, Vicky, embora meu amor pela cadelinha não a transforme em neta.

Mas é sobre as bodas de casamento que gosto de falar. Dizem que 15 anos é de Cristal. Que quem chega a isso tem uma relação sólida.  Mas, pra não esquecer que sou múltipla, tem a boda de 23 anos de reencontro (também neste mês), que não sei que nome leva, e a de 40 anos do primeiro beijo e primeiro namoro. Como essa será em outubro, procurarei seu nome lá pra frente. E ter tantos anos de história com alguém é uma grande dádiva, né não?

Para muita gente, até para você que o conhece, meu amor pode não ser um cara bonito. Tem características físicas comuns do Recôncavo baiano (sua mãe, dona Alaíde, era de Santo Amaro). 

Mas, mesmo assim o acho um gato. O meu gato. Não o gato no sentido de lindo. Mas o gato no sentido de gostar de se enroscar, de gostar do contato das nossas peles, de compartilhar sentimentos e sensações. 

De gostar de assistir um filme abraçado a mim. De gostar de caminhar de mãos dadas. De gostar de dormir de conchinha mesmo depois de tantos anos lado a lado.

Somos diferentes. Muito diferentes. Sou mais comunicativa que ele (tagarela mesmo, confesso). 

Gosto de me exercitar durante o dia (desde que a preguiça não bata). Ele prefere o anoitecer. Gosto de festa à noite, para poder colocar velas e me arrumar. Ele, durante o dia, pra ficar de bermuda e chinelo. 

Adoro ler. Ele, nem tanto. Adoro dançar. Ele se permite o forró pra me agradar. Nas reformas em casa, então, somos muito diferente e discutimos muito, mas no final conseguimos chegar a um acordo.

Mas também somos iguais. Bem iguais. 

Adoramos viajar (ele planeja e organiza tudo e eu o sigo). Adoramos receber os amigos. Curtimos nos abraçar ao acordar, ao nos encontrar na cozinha para o café, ao sair para o trabalho e ao retornar para casa ( isso nos dá uma energia forte e do bem para o dia todo). A terapia do abraço é uma constante em nossos dias. 

Gostamos de cuidar da casa e de depois sentar para relaxar com uma cervejinha gelada. Curtimos assistir filmes juntinhos, mesmo que ele durma antes da metade.


Inaugurar motor 5.5 ao lado de Roberto, que em setembro inaugurará seu motor 6.0, numa celebração de tantos anos de convivência é ter a comemorar. Principalmente em tempos em que as pessoas não têm  paciência uma com a outra, em que tolerância é palavra desconhecida do vocabulário dos casais e em que a paixão meteórica é cantada amplamente nos sucessos sertanejos como se fosse amor. 

Não. Amor que faz sofrer não é amor.

De tempos em tempos digo a Roberto o quanto o amo. "Já disse hoje que te amo", brinco. Ele sempre responde que não, com um sorriso leve no rosto, só pra me deixar declarar o meu amor. 

Literalmente ele nunca disse me amar em todos esses anos. Já fez como no filme Ghost: "idem". Isso não me incomoda nem me deixa insegura ou desconfiada, porque todos os dias ele diz me amar, com atitudes. 

Diz isso ao me acordar com um abraço, ao preparar nosso café da manhã, ao perguntar o que quero comer nos finais de semana, ao saber (isso mais recentemente, mas muito bem sabido) me presentear com sapatos que amo e me surpreender com uma linda orquídea em complemento a um presente, como fez hoje. 

Diz também ao me receber com um abraço todos os dias no jardim das nossa casa quando chego cansada depois de um longo dia dedicado ao trabalho. 

Também demonstra seu amor ao ficar ao meu lado, em silêncio, quando me vê triste e silenciosa, sem querer conversar. E diz, ainda, quando acordo nostálgica e meto música clássica na casa (embora ele não curta muito). 
Então, como já disse Tetê Espínola, "Signo do destino, que surpresa ele nos preparou, meu amor, nosso amor estava escrito nas estrelas, tava, sim". 

Sou abençoada, sei disso, e agradeço a Deus todos os dias por ter minha grande família e minha pequena família. Mas também peço a Deus sabedoria diariamente para continuar alimentando esse amor que me faz forte e feliz.

Sabe o que peço também a Deus? Que ilumine cada um de vocês para que se permitam a um amor assim: companheiro, cúmplice, atencioso, leal. 

Acredite: o amor é possível!

Você tem um amor? Conte pra gente.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Nilton Amorim:"O trabalho edifica o homem e o estudo alimenta a mente".



Era uma vez um jovem sertanejo, que labutava na roça com seus irmãos e pai na zona rural de Cacimbinhas, Alagoas, mas sonhava com um algo mais. 

Aos 17 anos, soube que a Companhia Hidroelétrica de Paulo Afonso - Chesf iria construir uma hidroelétrica em Forquilha, Bahia. Decidiu, então, seguir os passos do irmão mais velho e foi atrás do emprego.

Assim começa, na Bahia, a história de Nilton Cavalcante Amorim, meu pai. Nascido em 12 de agosto de 1933, Riacho do Mel, um sitio em Palmeiras dos Índios, Nilton foi o segundo dos 10 filhos de Floriza Cavalcante Amorim e João Braz Amorim, agricultores. Ela, de Pernambuco. Ele, de Alagoas. 

Sua infância e adolescência foram vividas entre os povoados Mata Burro, Tingui e Lagoa do Boi, na árdua lida com roças e secas intermitentes. Nem mesmo tinha acesso regular à escola, tamanha a dificuldade enfrentada, comum às famílias no sertão.

O irmão mais velho, Manoel Cavalcante Amorim, já tinha seguido para Forquilha e Nilton decidiu repetir seus passos. Partiu para Forquilha, na Bahia, bem na divisa com o seu estado natal. Foi determinado a conseguir uma vaga na Companhia. Acreditava que era a sua chance de conquistar uma vida melhor. 

Em 7 de outubro de 1950 chegou a Forquilha, no Município de Glória, Nordeste da Bahia, que posteriormente passou a ser conhecida como Paulo Afonso, cidade que abriga cinco hidroelétricas.

Como Nilton, milhares de homens – alguns mais jovens, outros, mais velhos – tinham na Chesf a oportunidade de ter um emprego e renda para alimentar a si e à sua família. A disputa era grande. Chegavam aos montes homens de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e até mesmo de outras áreas da Bahia. O trabalho era braçal, mas isso não lhe intimidava. Quem cuidava da roça já estava acostumado. 

O problema para Nilton Cavalcante Amorim era seu tipo físico: franzino, pouco mais de 1,60 m. Também era problema a sua idade – 17 anos. Para trabalhar tinha que ter 18. Para ser escolhido junto a uma multidão, Nilton ficou na ponta dos pés. 

Para ser contratado, disse que tinha 18 anos. Prova não tinha. Só sua palavra. Naquele tempo não se exigia documentos. Aliás, nem todas as pessoas tinham registro de nascimento ou outro documento de identidade. E assim foi escolhido na presença do engenheiro Apolônio Sales (primeiro presidente da Chesf) com mais um batalhão de peões.

Operário
 
Sua experiência na Chesf começou em 16 de outubro de 1950 como trabalhador braçal na construção da barragem para implantação das usinas Paulo Afonso I, II e III. Sua primeira matrícula foi 304. 

Nilton contava que depois de um dia de trabalho duro estava tão cansado que não tinha ânimo para estudar. Tampouco tinha incentivo de quem quer que fosse. Até ali tinha só até a 4ª série.

Junto com o irmão Manoel, morou no alojamento da Chesf, na área dos antigos galpões, perto do lago que depois viraria o balneário. Dividia o espaço em redes com quase uma centena de outros trabalhadores. 

Por considerar inseguro, vez que não tinham armários para guarda dos seus pertences, Nilton e o irmão resolveram alugar um canto na Vila Poty.

Ao final do primeiro ano de trabalho na Chesf, Nilton Amorim, o galeguinho dos olhos azuis, como muitos colegas o chamavam, passou a trabalhar na montagem da subestação. A atividade, além de menos cansativa que a anterior, despertou a necessidade e o interesse em estudar. 

Juntou-se a outros trabalhadores e contrataram um professor para prepará-los para o exame de madureza (de acordo com o artigo 99, e seu parágrafo único da Lei 4.024, de 20 de dezembro de 1961 (equivalente ao atual Supletivo)). Aprovado, pode iniciar o 1º ano colegial (Administração de Empresas) Colégio Sete de Setembro.

Por um período ocupou a função de telefonista, mas retornou logo para a montagem. Quando a montagem mecânica da subestação acabou, Nilton Amorim passou a trabalhar na instalação elétrica da usina, que foi inaugurada em 1955.

Iniciando a família
 
Nesse mesmo ano nasceu sua primogênita, Maria de Fátima, fruto do seu casamento (em 1954) com Maria Cleonice Galindo Melo, imigrante de Pesqueira (PE). 

Nesta época morava nas casas tipo O, perto da Escola Adozindo Magalhães de Oliveira. A partir daí passou a trabalhar como eletricista na parte da operação da Usina Paulo Afonso I, onde atuou por seis anos. 

Depois da casa perto do Adozinho, Nilton e a família foram morar nos galpões, perto de onde ele já tinha morado assim que entrou na Chesf. Menos de um ano depois ganhou o direito de morar em uma casa maior, na Rua L (atual Rua das Camélias), 96.

Com ambição de crescer profissionalmente, decidiu fazer no Instituto Monitor, pioneiro em educação à distância no Brasil, os cursos de Rádio e Televisão, e Eletrônica. 

Também começou a estudar Inglês com o professor Aquino, que era o chefe dos Correios naquela época, em aulas particulares. Para isso, adquiriu um gravador de áudio com fita de rolo, onde estudava diariamente na sua oficina, em nossa casa.


Com o certificado de técnico em Eletrônica e em Rádio e Televisão em mãos, em 1961, Nilton Amorim pediu para trabalhar no setor de Eletrônica da CHESF. Com orgulho lembro que meu pai instalou o sistema de som da Escola Adozindo Magalhães de Oliveira, onde todos os dias ouvíamos e cantávamos a oração de São Francisco. 

História da comunicação
 
Em 1962 (ano em que nasci), começou a contribuir para que os pauloafonsinos e moradores das cidades circunvizinhas de Alagoas e Pernambuco tivessem acesso à transmissão do sinal de televisão.

Sua história se entrelaça com a história da Chesf, com a história de Paulo Afonso e a história da televisão e da comunicação em Paulo Afonso e região. 

A história da Comunicação em Paulo Afonso passa diretamente pela história deste técnico em telecomunicações, Nilton Cavalcante Amorim. 

Em grande parte das quatro décadas que trabalhou na Companhia Hidroelétrica de Paulo Afonso foi um dos principais responsáveis pela implantação do sinal de televisão no município e em outros municípios vizinhos da Bahia, Pernambuco e Alagoas.
Não lembro de todos. Da esquerda para direita: Araújo, (...),(...), papai, Hans e Hermes

Naquele ano a Chesf deu início à repetição do sinal de televisão com um equipamento “caseiro” feito por Nilton Amorim e outros técnicos no laboratório de Eletrônica da empresa. Na Serra da Maravilha (AL), a equipe teve que subir a pé com os equipamentos e material para instalação da torre de transmissão. 

Anos depois a Chesf fez a estrada, facilitando o trabalho de manutenção. Foram instaladas por Nilton Amorim e colegas repetidoras em Paulo Afonso (na antiga Fazenda Chesf), Maravilha, Água Branca e Prata (AL), Garanhuns e Itaparica (PE).
Em 1964, aos 31 anos, Nilton Amorim assumiu a chefia do Laboratório de Eletrônica da Chesf

Dali ele supervisionava o trabalho de pesquisa de sinal das emissoras, o pedido de aquisição de equipamentos (feitos ao Rio de Janeiro), a instalação das torres e linhas de energia e dava manutenção às repetidoras de televisão. 

Nessa época convivíamos constantemente com alguns dos seus amigos, a exemplo de Gérson Campeão, Moacy e Seu João da repetidora (da Fazenda Chesf).

Edson Siqueira, operador de subestação e posteriormente operador de Sistema da Chesf, disse que sempre admirou Nilton Amorim: “Excelente técnico, muito inteligente e reconhecido em todo o Nordeste”. Ele conta que ao chegar a Goianinha (PE), onde a Chesf tinha uma importante subestação de distribuição de linhas, Nilton Amorim já era citado como uma das maiores autoridades em telecomunicação da Chesf.

Sinal de Televisão

Na década de 1970 o sinal de TV já chegava a muitas casas. Mas não em todas. Era comum a televisão solidária, onde os vizinhos assistiam novelas e programas no domingo à noite na casa de quem tinha a TV. 

Em nossa casa era uma Telefunken preto e branco, compartilhada com todos os vizinhos, que enchiam a sala e a ária (terraço ou varanda). 

Muitas mulheres xingavam Nilton sem nem mesmo conhecê-lo. É que nos horários das novelas era comum a sua voz interromper a programação enquanto se comunicava com a torre repetidora. Em todos os aparelhos da cidade, acompanhado de chuvisco na imagem, ouvia-se o “alô maravilha, serra da maravilha, câmbio”. Se fosse em final de novela, então... 

Às vezes achavam que era de propósito, mas ele garantia à família e amigos que não; apenas tentava resolver problemas na transmissão do sinal.

Formatura de Administração de Empresas
Educação

Em seu aprimoramento no saber, Nilton Cavalcante Amorim, além de cursar Administração de Empresas, também cursou Contabilidade no Colégio Sete de setembro. 

Como técnico em Telecomunicações chegou ao nível funcional mais alto possível dentro da Chesf - auxiliar de Engenharia III. Dali, só engenheiro. 

Infelizmente, na década de 1980 não havia o atual acesso aos cursos de nível superior nas cidades do interior. Para cursar Engenharia naquele período teria que morar no Recife, capital pernambucana onde estava instalada a sede da Companhia. 

Isso seria muito
Eu e meu pai na formatura de Contabilidade
difícil sem os subsídios que a
Chesf dava aos funcionários em Paulo Afonso, como residência, água, luz, escola e assistência à saúde. Tudo gratuitamente.

Viver fora da Chesf seria muito difícil com tantas bocas para alimentar, corpos para vestir e mentes para educar. 

Em Paulo Afonso era muito mais que isso, pois sempre tinha um irmão, sobrinho ou um cunhado a abrigar. Também tinha iniciado uma nova família com Maria da Luz Rocha, natural de Maravilha.

Aposentadoria e empreendedorismo

Nilton Cavalcante Amorim permaneceu chefiando o Laboratório de Eletrônica, que depois passou a Laboratório de Telecomunicações, até aposentar-se com 41 anos e 5 meses de trabalho, aos 58 anos e 5 meses de idade.  

Na época, o tempo máximo de serviço era 35 anos. Quando se afastou, ou melhor, foi afastado a contragosto porque queria continuar seu serviço na Chesf, o funcionamento das repetidoras já estava mais estabilizado, uma vez que a Chesf entregara a repetição para as empresas geradoras, a exemplo da Detelpe (Recife-PE), Gazeta de Alagoas, SBT e Globo, na Bahia.

Com a aposentadoria, Nilton Amorim, que já tinha uma oficina eletrônica em sua residência, se tornou um empreendedor. 

Abriu a Eletrônica e Papelaria Amorim, empresa familiar, na Travessa José Firmino Lins com a Rua Pedro Mendes. Pouco tempo depois abriu uma fábrica familiar de móveis tubulares – a Metal & Cia, na Rua Presidente Médici com a Rua Alto Nova. Alguns anos depois decidiu fechar a Metal & Cia e transferiu para este imóvel a eletrônica.

Desde a sua aposentadoria trabalhou diariamente, de segunda a sábado, mesmo que partir de 2005 não contasse com a mesma visão que o fez conhecer cada circuito e componentes eletrônicos de rádio e televisão. 

A cegueira, que começou a alcançá-lo a partir de 2015, o impediu de conhecer internamente os aparelhos digitais. Mas havia poucos técnicos com tanto conhecimento como ele nos aparelhos eletroeletrônicos analógicos.

Registro feito na Eletrônica Amorim em janeiro de 2013, já cego
Duas famílias

Sua família foi ampliada com mais seis filhos, desta vez com a sua companheira e, a partir de 2015, esposa legalmente, Maria da Luz Rocha – Delma. São 17 filhos, 29 netos e sete bisnetos. Todos vivos. Além disso, já são esperados até o final do ano de 2017, mais um neto (ou neta) e mais uma bisneta.

Em 4 de junho de 2017, apenas três meses antes de completar 84 anos, Nilton Cavalcante Amorim retornou ao plano espiritual. 

Deixou como legado o ensinamento de que filho é para toda a vida; Deixou a ética, a responsabilidade, a honestidade e que o trabalho edifica o homem e o estudo alimenta a mente.