quarta-feira, 12 de novembro de 2014

CARTA AO CÉU: Encontramos en el camino lo que llevamos en el corazón

Querida mamãe

Como vai, luz da minha vida? Tá tudo direitinho com a senhora aí no Céu? Já se habituou à sua nova vida? Desejo que haja brilho em seus olhos. Sei que não deve ser fácil e que a saudade, que pode ser confundida com a tristeza, deve estar batendo forte em seu coração da mesma forma que bate em nós. Mas não se deixe abater pela saudade que emitimos pra você, viu? Olha, estou ansiosa pra lhe contar sobre a nossa viagem e por isso lhe escrevo esta carta.

Lembra que uma das minhas parábolas preferidas é aquela que diz que encontramos no caminho aquilo que levamos no coração?  A senhora sabe que Roberto e eu somos do bem, E então, só encontramos gente legal. Acredita que pedimos uma informação a uma mulher num ônibus em Bogotá, capital da Colômbia, e como ela não sabia responder ligou do celular para a filha? Como íamos descer na mesma parada ela ainda seguiu junto e mostrou como chegar onde queríamos. Foi perigoso? Sei que podíamos ser alvo de uma armadilha, mas seguimos o nosso coração.

Não se preocupe que tomamos cuidado. Andamos bastante pelo Centro Histórico de Bogotá, pela Zona T, onde tem muitos restaurantes e bares, e subimos de teleférico ao Cerro de MonSerrate. Lá tem o Santuário do Senhor Caído e uma via crucis. Como fica a 3.152 metros sobre o nível do mar (altitude), cansa um pouquinho, Pra senhora ter uma ideia, Paulo Afonso fica só a 243 metros e Salvador a apenas 8 metros sobre o nível do mar. Aí já viu como respirar fica um pouquinho mais difícil, né? Mas, sabia que mesmo assim na Semana Santa os fiéis fazem essa via crucis em peregrinação? E pensar que algumas das suas rosas acham que a Serra do Retiro, em Glória, que tem 150 metros de altura e é caminho de peregrinação também, é muito alto.

Com tantas notícias sobre os grupos políticos criminosos da Colômbia, como as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), confesso que tínhamos medo de conhecer o país. Mas como é sabido que o governo colombiano tem buscado a paz depois de causar várias baixas nesse grupo considerado terrorista, decidimos ousar. E não nos arrependemos. Encontramos uma cidade muito organizada e com pessoas mais confiantes nas ruas: nativos e turistas. A senhora iria gostar de ver aquela cidade com seus prédios feitos de tijolinho, que eles chamam de ladrilho.

Mamãe, as ruas são monitoradas por jovens que estão prestando serviço militar. Tem um a cada intervalo de menos de 50 metros. Na Colômbia o serviço militar também é obrigatório e o recruta (como chamamos no Brasil) pode servir no exército ou na polícia, por um ou dois anos. Com seus casacos verde-abacate podem ser visto à distância e são atenciosos e simpáticos. Ao menos foram assim conosco. Bem que no Brasil poderiam fazer a mesma coisa, não é?

Ah! O transporte público, apesar de lotado nos horários de pico, é muito bom comparado com o nosso. Com a Transmilênio eles tem estações de norte a sul, com três partes que eles chamam de vagões e linhas de A a J. Os ônibus são daqueles grandes, articulados, e passam a intervalos de 5 a 15 minutos, A passagem é de $ 1,800 pesos colombianos nos horários de pico e $ 1.500 nos outros horários. Em real isso fica aproximadamente R$ 1,30 e R$ 1,19. Muito mais barato que em Salvador, que está R$ 2,80.Só usamos táxi à noite. Pra variar conversamos muito com o taxaista. Así que puedo practicar mi español.

Mulher, esta viagem fez a saudade de você bater forte. É muito estranho passar em cada cidade e não poder mais comprar um presente pra você. Afinal, a senhora não precisa mais disso. Situações assim é que dificultam um pouquinho a saudade. Quando vejo os casaquinhos, então, sinto um friozinho na barriga pensando em como você ficaria linda com eles. Saudade é assim, né? Não se preocupe. Compartilho mentalmente com a senhora cada canto que visito. Tomara que possa receber minhas mensagens e minhas emoções. Depois lhe falarei sobre a Catedral de Sal.

Receba o abraço de caranguejo e o beijinho em seus olhos dessa filha tagarela.
Com amor,
Vanda.


domingo, 2 de novembro de 2014

CARTA AOS CÉUS - O que significa finados?

Querida mamãe

Como passou nesses últimos dias? Desejo que bem, apesar de toda a saudade recheada de tristeza  emitida hoje por seus queridos, pela passagem do Dia de Finados. Achamos que você partiu muito cedo. Tá certo. Setenta e sete anos e meio não é tão cedo. Mas é que quando amamos desejamos não nos separar nunca. E você sabe que suas crias, mesmo morando em estados diferentes, sempre foram muito grudadas à senhora, né?

A senhora sabe que a maioria de nós não pode ir à Paulo Afonso, render homenagem no local onde repousa os seus despojos carnais, juntos aos do seu pai, vovô Zezinho, sua mãe, vovó Minice, e sua irmã caçula, tia Nenen. Mas tenho certeza que percebeu nossos pensamentos e nossos sentimentos de cada canto que estamos.

Sabe o que fui fazer hoje depois da minha prece e conversa matinal dirigida a você? Fui cuidar do corpo e da mente. Participei de mais uma corrida e dessa vez - aliás, pela segunda vez - Roberto foi comigo. Que bom né? Mas ainda não coorrrooo. Corro e ando. Corro e ando. Assim fizemos os 6 km. Não sou - ainda - uma corredora, mas pretendo chegar lá. Na madrugada da terça saíremos para mais uma viagem de férias. Dessa vez vamos pra Colômbia e Equador. Eita!!! De lá mandarei notícias.

Mamãe, a senhora sabe que sou curiosa e gosto de pesquisar, né? Outros queridos nossos já regressaram antes de você, mas só com a sua partida é que tive curiosidade de pesquisar sobre o dia de finados.  Encontrei que finados significa "que chegou ao fim", que está morto.  Também li que foi a Igreja Católica que determinou no século XIII que o Dia de Finados deveria ser celebrado no dia 2 de novembro. Como católica, a senhora certamente sabia que a Igreja Católica diz que nesse dia os vivos devem interceder pelas almas que estão no purgatório aguardando a purificação para entrarem no Céu. Mas será que sabia que os protestantes (mais conhecidos ultimamente no Brasil como evangélicos ou cristãos) não acreditam que exista purgatório e que não tem o hábito de orar pelas pessoas que desencarnaram? Eu não sabia. De qualquer forma, como muitas vezes sou do contra, não concordo com nenhum dos dois grupos.

Também não acredito em purgatório. Pelo menos não na concepção da Igreja Católica. E tenho o hábito de orar por aqueles que faleceram. Acredito que faz bem aos espíritos - de vocês que regressaram e nosso, que aqui continuamos.

E aí encontrei na internet um arquivo interessante do O Imortal - Jornal de divulgação espírita, sobre o Dia de Finados. Ali está escrito que vocês que já partiram costumam também ir aos cemitérios nesse dia, sintonizados no pensamento das pessoas queridas - familiares e amigos- que foram ali prestar uma homenagem. Logo que li isso, pensei: "poxa, então minha prece, meu abraço, meu beijo e minha conversa com mamãe hoje não foi sentida porque eu não estava no cemitério?". Continuei a ler e vi que o que santifica o ato de lembrar é a prece ditada pelo coração, não importa onde eu estiver. Ufa! Que alívio! Então você recebeu a lembrança de todos nós, mesmo os que não puderam ou não quiseram visitar seu túmulo. Recebeu as flores reais e as flores mentalizadas.

Na verdade, mamãe, não gosto muito do termo "finados". Não considero que a senhora e todas as pessoas que amo que já regressaram tenham "chegado ao fim". Acho, sim, que esta reencarnação chegou ao fim pra vocês, mas que todos estão vivos, porque a vida prossegue. É eterna. Tenho certeza que a senhora já sabe disso e sente a fluir no seu corpo. Aliás, no seu perispírito, porque o corpo que lhe foi emprestado já foi devolvido.

Receba minha saudade com meu abraço de caranguejo e meu beijinho em seus olhos.

Sua filha tagarela.

Vanda.




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

CARTAS AO CÉU - Cada estrela é alguém querido que regressou

Querida mamãe,

Desejo que a senhora esteja bem e já recuperada da enfermidade que a fez regressar ao plano espiritual há três meses. Sinto que suas dores já passaram e que está cada dia mais forte, com uma luz a irradiar em seu corpo espiritual. Sinto que sabe que está viva e que, apesar da saudade de toda essa imensa família que ainda tem missão a cumprir aqui, está bem. Sei, inclusive, que a sua saudade é maior que a nossa. Afinal, cada um dos seus 11 filhos, 19 netos e sete bisnetos sentem saudades sua, mas você sente a saudade de todos nós.

Desde menina sempre achei que cada estrela é alguém muito querido e de muita luz que regressou após cumprir sua missão. Sei que a ciência e a astronomia têm suas definições para as estrelas. Mas prefiro ter essa. E como a sua história nesta encarnação se concentrou no nordeste, principalmente na divisa entre Bahia, Pernambuco e Alagoas, estou aguardando mais uma estrela azul – das maiores – a brilhar naquela direção. Se ajudar a se posicionar, vi que a Latitude geográfica de Paulo Afonso, onde a senhora viveu por mais de 60 anos, é 09º 24' 22" S e a Longitude 38º 12' 53" W. Tenta achar um lugarzinho por ali, viu? Quem sabe a sua luz e energia não contribui para ajudar o nosso Velho Chico.

Infelizmente nenhuma operadora de telefonia disponibiliza pacotes para falar com quem está em outra dimensão, em alguma cidade especial desse mundão de Deus. Acho que quando inventarem vão ganhar muito dinheiro.  Não ter a nossa conversa matinal diária por telefone é o que me faz muita falta. Mas como sou tagarela e quero sempre saber como a senhora está, falo mentalmente e às vezes até alto mesmo, sozinha, quando saio pro trabalho, quando retorno e quando vou dormir. Tou sendo chata? Se tiver dê um sinal, viu?Não quero incomodá-la.  Mas quero que esteja aproveitando bem a oportunidade de se livrar de todas as dores e doenças, de se fazer forte e cada vez mais linda. Que esteja tendo reencontros que a deixe feliz. Quero ver você brilhar.

Aqui nossa vida prossegue. Tivemos a eleição onde Dilma foi reeleita no segundo turno. Não foi uma eleição fácil. Acho que a senhora teria ficado agoniada com a guerra que teve nas redes sociais entre os eleitores de Dilma e de Aécio. Essa guerra continua até agora. Como o Brasil ficou praticamente dividido, eleitores sem noção do Sul e Sudeste tão caindo de pau nos eleitores do Nordeste. Já pensou que besteira? Somos todos brasileiros, né?   Mas ninguém pode desprezar o nordestino porque a senhora, como boa nordestina, sabe como nosso povo é guerreiro. Quem sobreviveria a décadas de seca? Mas deixa pra lá. Logo logo arranjam outra coisa pra se preocupar. Amar ao próximo como a si mesmo é uma boa opção, né?  

Vou ficando por aqui, cheia de saudades. Receba meu abraço de caranguejo e meus beijinhos nos olhos (acho que não precisa mais de óculos, né?).

Sua filha que fala pelos cotovelos,

Vanda.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A vida é marcada por palavras. Quais são as suas?

Algumas pessoas dizem que nossas vidas são marcadas por ações. Acho que são por palavras. Afinal, são as palavras que conduzem as nossas ações. E até essas ações tem nome, não é verdade? Quais são as palavras que marcam e conduzem a sua vida? Eu sei de algumas minhas, mas não consigo ainda dar ação a todas elas. Mas tive o privilégio de conviver, nesta encarnação, por todos os meus 52 anos, com alguém que chegou, sofreu, amou, amadureceu, evoluiu e regressou com palavras e ações muito bem marcadas: minha mãe, Maria Cleonice Amorim, que se despiu da carne que lhe foi emprestada por Deus e regressou para a plenitude espiritual no último 1º de agosto.

Palavras: AMOR, FAMILIA, PERDÃO, AMOR
A vida de mamãe foi sendo marcada por palavras ao longo dos seus 77 anos e meio, como também são palavras os nossos nomes. O dela começou como Maria Cleonice Melo, filha de Sivirino e Domenícia, sertanejos pernambucanos que foram para Paulo Afonso em busca de uma vida melhor quando da construção das usinas hidroelétricas. Depois passou a Maria Cleonice Amorim, quando contraiu matrimônio com nosso pai, Nilton Cavalcante Amorim, aos 17 anos de idade.

Mas Nicinha é como a maioria a conhece, apesar de filhos e netos a chamarem também de Cleo e, mais recentemente, uma das bisnetas passou a lhe chamar de Teteo. Para nós, a palavra que traduz Cleonice, Nicinha, Cleo e Teteo é Rainha, a nossa rainha.

A maioria de nós não sabe quais foram as palavras-chave da missão que nos foi dada ao ser colocada aqui por Deus, nosso Pai. Mas Nicinha, mesmo que não soubesse, aceitou e cumpriu várias palavras-chave da sua missão. A primeira delas foi CUIDAR. Cuidou dos seus irmãos, cuidou do seu marido e dos seus 11 filhos, cuidou dos seus pais. Também cuidou de netos e ajudou a cuidar de bisnetos.

Outra palavra-chave da sua missão foi AMOR. Nicinha amou mesmo quando achou que não seria mais capaz de amar devido a desilusão. Ela amou de forma infinita e incondicional a sua família e aquele aceitou como marido e pai dos seus filhos.

Com tamanho amor, Nicinha passou a se permitir o exercício de mais duas palavras-chave: a e o PERDÃO. Com a fé ela deixou o perdão se fazer forte e presente em sua vida, em seu coração, em sua alma. Mamãe descobriu que perdoar alivia a alma, deixa o corpo leve, deixa a vida leve, como se um grande peso fosse tirado dos seus ombros.

ALEGRIA
O amor ainda lhe ensinou o exercício de outras duas palavras da sua missão: TOLERÂNCIA e PACIÊNCIA. Afinal, são palavras essenciais quando lidamos com o outro, principalmente quando o outro é filho, marido, irmão, pais ou até amigos.

RESPEITO e HUMILDADE foram palavras que sempre estiverem presentes na missão de vida de Nicinha. Ela aprendeu, com tantos filhos diferentes entre si, que as pessoas precisam ser respeitadas mesmo que diferentes e que temos sempre que ter humildade para admitir os nossos sentimentos, para admitir que somos passíveis de erro, para perdoar... Humildade para amar, para viver.

Mais uma palavra-chave da missão de Nicinha: CARIDADE. Esta palavra fez parte da vida de mamãe desde os tempos de menina, quando seus pais tinham pouco, mas ensinavam a dividir. Assim ela fez conosco, procurando nos ensinar que onde há amor não há espaço para egoísmo e para orgulho.

A sua devoção à Nossa Senhora intensificou a palavra caridade e a uniu a outra; GRATIDÃO. Nicinha sempre se declarou grata a Deus por ter visto seus 11 filhos ficarem adultos e serem pais; alguns deles avós. Por ter visto sua família se multiplicar de 11 para 37 pessoas, sem incluir genros e noras. Grata por outras bençãos recebidas, como a de ter feito muitos amigos por onde passou. Aprendeu e nos ensinou o valor das palavras AMIZADE e ALEGRIA.

VIDA e GRATIDÃO
A sua missão como filha, esposa, mãe, sogra, avó, bisavó, também incluiu outras palavras: HARMONIA e UNIÃO. Aprendeu-as e as transmitiu em todas as suas relações,principalmente nas relações familiares. Nicinha pediu a cada um dos seus 11 filhos para deixarem apenas o amor, harmonia e união fazerem parte das nossas vidas. Ela sabia bem as qualidades e os defeitos de cada um de nós. Coisas de mãe de 11 filhos tão diferentes entre si como são os dedos das mãos.

As palavras VIDA e MORTE são inerentes de todas as missões. A diferença está que costumamos deixar a alegria tomar conta de nós quando Deus nos manda um novo ser, enquanto costumamos deixar a tristeza e o pranto invadir nossos espaços quando Deus chama algum de nós, dos nossos, de volta. Não tem sido diferente conosco, mas estamos exercitando muitas das palavras que Nicinha aplicou tão bem em sua trajetória nesta encarnação.

Somos gratos a Deus pela palavra AMOR, transmitida por nossa rainha através da sua companhia amorosa e dedicada numa vida de 77 anos e meio.

Agradecemos pela palavra PERDÃO, que nos foi ensinada por um ser em evolução, capaz de perdoar e tentar apagar a mágoa mais profunda do seu coração.

ALEGRIA, AMOR E FÉ
Somos gratos pelas palavras HUMILDADE, TOLERÂNCIA, PACIÊNCIA, CARIDADE e FÉ que nos foram transmitidas em pílulas diárias por nossa mãe.

Somos gratos pelas palavras UNIÃO, RESPEITO e HARMONIA, estimuladas por Nicinha no convívio entre nós, irmãos, para aplicação em nossas vidas.

Com o regresso da nossa mãe estamos aprendendo a força da palavra SAUDADE e o sentido da palavra PAZ. A saudade é forte em nossos corações, mas as palavras GRATIDÃO e AMOR estarão sempre presentes em nossos corações, até a eternidade.A paz ao lado de Jesus, a quem tanto amou e confiou é o que desejamos a Nicinha. Temos certeza que o seu livro de palavras, que chamamos MISSÃO, foi concluído com louvor.

Como nosso aprendizado prossegue, temos o compromisso de buscar preencher nosso livro com as palavras que nossa mãe nos ensinou e nos deixou como legado.

E você? Quais as palavras compõem o livro da sua vida?


segunda-feira, 16 de junho de 2014

Por onde anda seu primeiro amor?


Gente, Marina e André, que namoraram na adolescência, se reencontraram aos 85 e 87 anos e voltaram a namorar. Adorei a história.

Na semana passada tivemos os festejos para Santo Antônio, considerado um santo casamenteiro. Além das novenas, muita mulher, ao menos nas cidades pequenas, fazem simpatias e adivinhações pra ver se o amor está chegando e quem será. Eu mesma fiz isso quando tinha quase 15 anos e você pode conferir clicando aqui. Mas o tema da minha confabulação não é adivinhações ou simpatias ou novenas para Santo Antônio. Quero conversar com vocês sobre o primeiro amor. Você lembra do seu? Você se manteve junto a ele até agora?

No dia de Santo Antônio encontrei uma amiga no arraiá da Praça Segredos de Itapuã, pertinho da minha casa. Conversa vai, conversa vem, ela me contou que o pai, com 87 anos, está namorando. Verdade? Quem? Voltou a namorar com a primeira namorada, que hoje tem 85 anos. Olha que lindo!! Se eu já achava a minha história super romântica (leia aqui), imagina essa. Como boa canceriana quis saber de todos os detalhes, que compartilho com vocês.

Certo dia o pai da minha amiga estava chegando na casa dela. Quando ele entrou, uma senhora, mãe de uma vizinha da minha amiga, veio perguntar a ela quem era aquele homem. Ela respondeu que era o seu pai. A mulher perguntou se o nome era André (fictício). Ela disse que sim e aí a mulher chorou, emocionada. Disse que ele era o seu primeiro amor, que nunca tinha esquecido. E voltou pra casa da filha.

Ao entrar em casa, minha amiga perguntou ao pai se ele conhecia uma mulher chamada Marina (também fictício). Depois de perguntar o porquê, respondeu que sim. Que tinha tido uma namorada com esse nome. Aí minha amiga lhe contou o que aconteceu e disse que Marina era a mãe da vizinha do lado e que o reconhecera depois de tantos anos.

Os dois, então, foram colocados em contato e, do jeito deles, retomaram o namoro. Marina não mora com a filha e nem no mesmo condomínio. Mas mora num bairro próximo. André também não mora na casa de minha amiga, a sua filha, mas também mora perto.

Esse reencontro romântico, contudo, tem uma pedra no caminho: o Alzheimer que já invade um pouco a memória de André. Os remédios que usa tem dado um ritmo mais lento a essa "queima de arquivos". Como sabemos, o Alzheimer apaga, primeiro, a memória recente e, por último, a memória emocional. Então Marina, apesar de ter sido lembrada por André por fazer parte das suas recordações amorosas, de vez em quando fica sem o namorado, porque ele esquece que marcou o encontro (memória recente).

Com esse reencontro fiquei pensando em Marina. Por que ela se emocionou tanto ao reencontrar o seu primeiro amor e retomou o namoro já, ambos, com idade avançada? Dizem que o primeiro amor a gente nunca esquece. Eu nunca esqueci o meu e tive a sorte de retomar o namoro. No meu caso não vivi 10 anos - o tempo que ficamos separados - pensando nele, mas o amor reacendeu com o reencontro. E no caso de Marina... será que ela sempre o amou, mesmo tendo casado com outro e constituído família? Ou foi como eu?.

Não para por aí minhas perguntas: será que não vivemos plenamente e longamente o amor primeiro por imaturidade ou por destino? E o reencontro, será que estava escrito nas estrelas? Será o primeiro amor o encontro e reencontro de almas?

Sei de histórias de pessoas que casaram com seu primeiro amor e continuam casados e apaixonados, como minha irmã caçula, Kátia Luciana  e seu amor Edilson. Mas na maioria das vezes não é assim. Queria saber como foi com você. Seu primeiro amor ainda é o atual? Se o primeiro amor se perdeu no caminho, você ainda pensa nele? Se o reencontrasse, voltaria a amá-lo? Deixe aqui sua história, junto com a minha e a de Marina.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Fiscalizar parceiro(a) nas redes sociais não é amor

Você fiscaliza as mensagens nas redes sociais, aplicativos e telefones de quem você ama? E as suas mensagens e ligações também são monitoradas por seu amor? Se você respondeu a sim a pelo menos uma das perguntas, tá na hora de fazer uma autoavaliação do seu relacionamento e da sua forma de amar.

Resolvi confabular com vocês sobre esse tema depois  de ver as situações apresentadas no programa Fantástico, da Rede Globo, mostrando os problemas que casais vem enfrentando por causa do uso das redes sociais.  Esse quadro, em minha opinião, só confirma a falta de maturidade das pessoas, principalmente dos jovens.

Situações como essa, que se tornam cada vez mais comum, confirmam a minha impressão de que os adolescentes e jovens vivem uma epidemia de insegurança e de carência afetiva. Vocês sabem que não sou psicóloga. Mas o exercício do jornalismo me fez ainda mais observadora. E esta constatação vem da minha observação quase diária. Engraçado que conversei sobre esse tema nessa semana que passou com três rapazes, entre 22 e 25 anos, que participaram de uma palestra em que estive também presente.

A carência e a insegurança começam no "ficar", que no século 21 veio substituir a "paquera" comuns nos clubes e boates nas décadas de 1970 e 1980. Em comum entre as duas situações tem o fato de você estar com alguém, em algum lugar, alguma festa ou balada, sem compromisso futuro. A diferença está no fato de, na "paquera" da minha juventude, se gostávamos do beijo, do abraço, do sarro, na próxima oportunidade o encontro rapidamente evoluía para o namoro. A geração do meu filho, que fará 30 anos na próxima semana, e gerações posteriores, "fica" por meses infinitos. Não assume que é namoro, mas tem todos os compromissos como se namorados fossem: se falam todos os dias, trocam "zap-zaps" a cada instante, estão juntos em todos os momentos... mas não namoram. Fuga equivocada de compromisso.

Aí, quando assumem o namoro, mesmo que percebam que não tem lá muitas afinidades, resolvem agir como se fossem uma única pessoa. Alguns tem perfil em rede social conjunto "Maria-José", senhas de e-mails e outros compartilhamentos. Também, como não ser assim, se já compartilham como marido e mulher o quarto de um deles na casa dos pais? Acreditam que a intimidade que vivem, em namoros que duram até 15 anos, é suficiente para viver um amor sólido. Muitos, quando passam do namoro-casamento-na-casa-de-nossos-pais para o casamento oficial, não conseguem viver juntos muito tempo. A insegurança, a consequente possessividade e o nefasto ciúme destroem o castelo de areia do casal.

Confiança é essencial em um relacionamento. Compartilhar senhas com o namorado/marido ou namorada/mulher não é garantia de que não haverá traição. Adicionar pessoas desconhecidas ao perfil não significa que haverá traição. Editar regras de uso das redes sociais não é sinônimo de lealdade ou fidelidade. Para fidelidade não há regras; há quereres. Ninguém pode botar a mão no fogo por ninguém, mas pode alimentar uma relação baseada na cumplicidade, na amizade, na confiança, no prazer de estar juntos e, principalmente, no respeitar da individualidade do outro. Não será o "pegar no pé" deixando o/a amado(a) "piados" - amarrados pelos pés como frangos e galinhas nas feiras - que garantirá vida longa ao amor. Só fica ao nosso lado quem realmente nos curte, quem tem prazer com a nossa companhia.

Se você faz parte desse exército de patrulheiros, que tal exercitar a confiança? Acredite, você só tem a ganhar.

Sugiro a leitura desta outra confabulação se você acha que ama e quer casar: "Quatro requisitos para casar"

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Será que seu pensamento lhe pertence?


Dias deste precisei viajar para Itabuna a trabalho e um amigo e sua esposa me convidaram para um jantar em sua casa. Além de prazer de revê-los, tive a oportunidade de conhecer pessoas novas e conversar sobre temas nem tão novos assim. No grupo dos homens, discutimos política. Com as mulheres, papos diversos sobre trabalho, amor, comportamento e sentimentos. E uma das conversas rendeu bastante. Falamos sobre a capacidade de identificarmos sentimentos, pensamentos e reações que não são nossas.

Como assim?!, você pode estar se perguntando. Tudo o que sentimos, pensamos e fazemos não vem de nós mesmos? Sim e não.

No grupo estava uma psicóloga apaixonada pelo estudo da mente de pessoas infratoras. Disse ela que tenta entender o que os leva a cometer um delito, um crime. E acabamos por falar das influências externas e, até, invisíveis.

Contei-lhes sobre minha mãe, que tem 77 anos e por muitos anos dependeu de remédios para dormir, até que se determinou que não queria mais viver assim. Já tem mais de 20 anos que ela saiu dessa dependência, mas volta e meia surge um quê de tristeza, talvez sinal de depressão, em seus olhos pretos e pequenos. Sempre em dezembro, mês em que aniversaria, ela vem a Salvador para festejar o seu aniversário e o Natal comigo e mais duas filhas que moram aqui. Sempre fico atenta aos sinais do seu corpo para tentar ajudá-la.

Quando chego do trabalho, à noite, ela está sentada no sofá, assistindo a alguma novela ou missa. Quando está bem, levanta-se e vem ao meu encontro na varanda para receber o meu abraço de caranguejo. Quando algo não vai bem, permanece sentada com uma sombra a diminuir ainda mais os seus olhos. Certa noite isso aconteceu. Entrei em casa, larguei a bolsa, puxei-a pela mão e lhe dei um beijo em cada olho perguntando o porque da tristeza. Ela me respondeu que não sabia. Convidei-a, então para fazer um inventário.

Era assim o inventário:
Quantos filhos a senhora tem? Onze.
Algum morreu? Não
Afora o alcoolismo de um, algum é vítima de doença grave? Não
A senhora tem doenças crônica como diabetes. Perdeu alguma parte do corpo ou visão? Não
Tem onde morar? Sim
Tem o que comer? Sim
Pode viajar pra ver os filhos? Sim
A saudade que tem dos seus pais que se foram está doída? Não
A saudade do marido bateu forte? Não
Essa tristeza é sua? Acho que não.

Continuei contando às pessoas no jantar como orientei mamãe.

Lembrei a ela de um momento difícil, onde duas vizinhas agiram de forma diferente. Uma, pediu-lhe calma e serenidade. Outra, estimulou a discórdia com o marido por causa de uma traição. Disse-lhe que do mesmo jeito pode acontecer no invisível. Um espírito pode ser atraído por uma pequena faísca de sentimento negativo - raiva, tristeza....- e colar conosco, estimulando nosso pensamento. Talvez, quem sabe, uma mulher que tenha tido muitos filhos como a senhora e morreu sozinha. Sentiu sua saudade dos filhos espalhados por Paulo Afonso (BA), Piranhas (AL), Recife (PE), São Paulo (SP) e Salvador (BA) e quis lhe fazer companhia. "Será?" . Faça o seguinte: mentalmente agradeça a solidariedade desse espírito, mas diga que ele não pode ficar assim, porque temos os filhos para o mundo. Diga pra que deixe a mágoa e a tristeza de lado, que perdoe e siga adiante para encontrar a paz. E todas as vezes que a senhora sentir isso, faça a mesma coisa.

Minha mãe voltou para Paulo Afonso e, meses depois, ao nos falarmos por telefone (conversamos todos os dias) ela me disse:
"Acho que meus amiguinhos invisíveis estavam querendo ficar junto de mim de novo"
Foi? A senhora sentiu o quê?
" Uma tristeza como naquele dia em que estava na sua casa"
E o que fez?
" Disse que não tinha motivos pra estar triste e que eles seguissem em paz"
E passou a tristeza? Sorrindo, ela disse que sim.

Lembro que Newton Simões, que coordenou o Centro Espírita Boa Nova até o seu desencarne, falava que a obsessão é mais comum do que pensamos. Não falo aqui da obsessão demonstrada por pessoas que querem algo a qualquer custo e não sossegam. Falo da obsessão espiritual. Aquela que faz, como fez com mamãe, a gente sentir um sentimento que surge do nada. Pode ser uma tristeza, uma raiva, um desejo exacerbado por sexo, ou por álcool ou drogas. Newton dizia que, quando paramos e nos conhecemos, conseguimos identificar se esses sentimentos são nossos ou não.

Segundo  artigo de Marcos Paterra, diretor científico da Associação Médico-Espírita  de Pernambuco, " Para evitar e/ ou afastar os obsessores é  necessário, acima de tudo, autoconhecimento e reforma íntima.

Na semana seguinte, já em Salvador, encontrei a psicóloga que estava no jantar. Ela me disse que a conversa a fez refletir e a se auto-observar; que conseguiu identificar sentimentos que não eram delas. Fiquei feliz, principalmente porque a maioria de nós não consegue. Não conseguimos vigiar nossos pensamentos, sentimentos e ações. Tampouco orar quando a influência espiritual nos leva a doenças psicossomáticas.

Você consegue identificar sentimentos e pensamentos que não são seus? Tente e pode dizer: esse sentimento/pensamento não me pertence.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pais podem cobrar contrapartidas de filhos?



 Educação dos filhos é sempre tema polêmico e dar palpite entre amigos pode gerar alguns atritos. Uma das questões que surgem com alguma frequência é se os filhos têm ou não que dar contrapartida aos pais; se têm ou não obrigação de assumir tarefas ou outras responsabilidades na casa dos pais enquanto vivem ali.

Na adolescência de meus 10 irmãos e minha tínhamos tarefas a fazer em casa. Aliás, nós filhas tínhamos. Aos dois filhos as tarefas eram ocasionais. Entre as meninas uma lavava os pratos do almoço e outra enxugava, enquanto outra lavava as tantas panela que mamãe usava para cozinhar. Mais uma varria metade da casa (varanda, que chamávamos de área, sala e três quartos), enquanto outra arrumava o restante (copa, cozinha e mais um quarto). Ainda tinha a que lavava o banheiro. À noite tinha mais rodízio para lavar e enxugar os pratos do jantar.

As filhas mais velhas ajudavam a cuidar dos mais novos. Isso mesmo quando tínhamos empregada doméstica. Confesso que eu tinha uma preguiça danada de lavar pratos, mas adorava arrumar a casa. Isso significava "faxinar" todas as gavetas e passar cera e enceradeira no chão de piso vermelho. Se a enceradeira queimasse, tínhamos que dar o brilho com um pano, esfregando-o no chão com as mãos ou os pés. Ou ainda com um esfregão. Essas tarefas eram contrapartidas e ainda nos preparava para a vida, para vivermos sem depender de ninguém.

Tem também a contrapartida financeira, com os filhos contribuindo com uma parte dos seus salários para as despesas da casa, principalmente se ainda vivem com os pais depois de adultos. Roberto, meu marido, diz que na família dele todos davam uma parte do salário para a mãe. Caso “esquecessem”, a mãe cobrava. Exigência parecida faz uma das minhas irmãs com suas filhas, embora apenas uma ainda more com ela e o marido.

A minha contrapartida financeira inicial foi trabalhar para pagar a faculdade. Meu pai pagava as despesas com moradia e alimentação. Pagaria também a faculdade, mas meu senso de independência e meu orgulho o dispensaram dessa despesa. Tem também quem dê contrapartida financeira voluntariamente mesmo depois de ter saído da casa dos seus pais. É o seu caso? Parabéns! A vida inteira eles fazem por nós.

Mas o mundo mudou e parece ter crescido o número de pais – mães, principalmente – que acham que nada devem cobrar dos seus filhos. Nem na divisão de tarefas domésticas, nem – e bote NEM nisso – com contrapartida financeira.

Ouvi, certa vez, de uma amiga que tem dois filhos e uma filha, que ela nunca exigiu nada dos filhos por achar que eles não têm obrigação de fazer nada, porque a casa não é deles. Como não, se dormem, comem, recebem roupas e acessórios, escola paga, e, se o imóvel for da família, serão herdeiros quando da passagem dos pais para o plano espiritual?

Também ouvi de um amigo, que tem a mesma quantidade de filhos e na mesma configuração, que filhos não têm que dar contrapartida nenhuma. Tem que estudar e trabalhar para construírem as suas vidas. Concordo parcialmente. Como filhos, temos que estudar e trabalhar para construir um futuro equilibrado. Mas isso não impede a contrapartida em tarefas e financeiramente.

Em minha opinião, a contrapartida simboliza gratidão e solidariedade. A gratidão, por tudo o que recebe, mesmo que não seja na quantidade e qualidade que gostaria de ter. Isso dependerá da condição social dos pais. A solidariedade, porque se cada um na família assumir uma tarefa – principalmente se não tiver empregada doméstica – sobrará mais tempo para que todos tenham, pelo menos, uns minutinhos juntos em família. 

Contrapartida no lar amadurece e dá responsabilidade; quando dada voluntariamente ou sem reclamar quando convocados, demonstra amor pelos pais ou por quem divide o lugar onde moram.