segunda-feira, 22 de julho de 2013

O difícil exercício de se colocar no lugar do outro.

Meu marido diz  que adoro ouvir a conversa dos outros. Não é bem assim; não fico ouvindo atrás das portas ou nas extensões dos telefones. É bem assim; não consigo deixar de ouvir as conversas quando estamos em locais públicos. Sempre dá pano pra manga.

Na semana passada, por exemplo, enquanto estava numa recepção da ala de consultórios do Hospital San Rafael, acabei ouvindo duas mulheres que estavam na fileira atrás de mim. Nessa tarde parece que muitos médicos atrasaram. Pelo menos estavam a minha e a delas - que não eram a mesma. Uma dessas mulheres reclama sem parar de que a médica - uma ginecologista - leva mais de meia hora no atendimento do paciente.

"_ Dá vontade de bater na porta...", diz.

Menos de um minutos depois ela dispara: " Dá vontade de ir embora, não vou mentir."

E o papo de críticas e lamentações prossegue enquanto o painel vai apitando e mudando os números das senhas, sempre na tônica de que cada consulta da tal médica é muito longa. Sinto vontade de olhar pra trás e perguntar se elas gostam dos médicos que fazem as consultas do tipo INSS (hoje SUS), que não levam nem cinco minutos e o paciente nem é examinado. Como nem sempre sou "abelhuda" e não estava disposta a ver um papo render, fiquei na minha e resolvi falar sobre isso aqui com vocês.

Segundo o censo de 2010 do IBGE, pelo menos 1,69 bilhão de pessoas se dizem cristãos (Católicos, evangélicos e espíritas, pelo menos) no Brasil. Acho que você sabe que o termo "cristão" se deu a quem seguia os ensinamentos de Jesus Cristo, né? Mas, porque será que a maioria não tenta seguir uma das orientações deixadas pelo líder Jesus Cristo, que está na Bíblia, que é "Amar o próximo como a si mesmo" ou trocado em miúdos, não deseje para o próximo o que não deseja para si mesmo.

No trânsito, é cada vez mais comum os motoristas que querem sempre passar na frente do “otário” que respeita o sinal, embora não dêem passagem pra ninguém quando estão na frente.


No banco, as pessoas pedem, descaradamente, para que um conhecido que está mais na frente na fila pague as suas contas ou façam o seu depósito; acham o máximo serem fantasmas da fila.

No médico, todo mundo quer ter um atendimento detalhado, com atenção e dedicação, mas reclama  se o médico está demorando um pouco mais com outro paciente, como no caso das mulheres da sala de espera.
Nesta e noutras situações cotidianas, as pessoas sempre agem de um jitó quando é consigo e de outro quando é com outro alguém.

Por que temos que dificultar tanto a vida? Por que não tentamos, pelo menos, nos colocar no lugar do outro? Acredito que assim teríamos menos conflitos no trânsito, nas filas de banco e nas recepções dos consultórios.

Do meu lado, procuro fazer a minha parte. Se o meu médico está com um paciente, não reclamo. Na minha vez gosto de tudo explicadinho e isso leva tempo. No banco, evito pedir favores a quem já está na fila. No trânsito, procuro respeitar as regras. Agora, se o pedido de passagem é pra dar “roubadinhas” em áreas de conversão proibida, não conte comigo. Se eu posso respeitar as regras, você também pode e deve.

Pelo que vemos, não é fácil se colocar no lugar do outro. Você tenta?
 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Quem não é corrupto é otário e vacilão

Em nossas andanças pelos países vizinhos vivi duas situações interessantes que nos fez refletir sobre o Brasil e que tem tudo a ver com os gritos de protesto das infinitas manifestações.

Equipe da Tum Tum surpreende com confiança
Em outubro de 2008 andamos pela Venezuela, onde o povo se dividia entre o endeusamento de Hugo Chaves e a sua execração. Passamos dois dias em Coro, uma das cidades mais antigas do país e reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 1993. Também conhecida por Santa Ana de Coro, é a capital do estado de Falcón e do município Miranda. Mas não quero falar de geografia. O fiz apenas para lhe situar. Em Coro, ficamos na pousada Tum Tum, que nos foi indicada por uma pessoa em Mérida, e que estava em transição de gestão. A dona, Angélica ( belga), tinha acabado de vender para o casal Damien (francês) e Norka (Venezuelana).

Na primeira manhã Roberto perguntou se tinha cerveja. Sim. Long neck. Pediu duas. A belga disse que pegasse no frezer que estava no salão da recepção (que ficava no fundo, próximo ao pátio). Ao tirar a carteira para pagar, a surpresa. Anote aí no quadro cada vez que pegar uma; quando fechar a conta da pousada você paga tudo. A gente mesmo anota? Sim. Olhamos e vimos um quadro de pouco mais de um metro, onde já tinha alguns nomes escritos e ao lado uns tracinhos. Isso funciona? Sim, respondeu a moça sorrindo. Nos entreolhamos e sorrimos.

Em Copacabana, Bolívia, crença na honestidade
Em outubro de 2009 quando nossas mochilas circulavam por Copacabana - não a brasileira/carioca, mas a boliviana -, nos surpreendemos com o respeito e a tranquilidade dos nativos e dos turistas que passavam por ali. Em uma das ruas que leva às margens do Lago Titicaca, onde se concentram restaurantes e lojinhas de artesanato, uma das lojas nos chamou a atenção. Aberta, mas sem ninguém. Um cabo de vassoura sobre duas cadeiras na entrada impedia o acesso das pessoas. Perguntamos aos vizinhos pelo vendedor e nos disseram que ele precisou sair (ao banheiro, se não me engano).  Disse que era comum isso por ali. E ninguém entra ou rouba? Não.

A reflexão que fizemos nesses dois casos é bastante apropriada para este momento em que tantos tem ido às ruas clamar pelo fim da corrupção no Brasil. Não pude parar de pensar em como a corrupção está inserida no cotidiano de cada cidadão sem que ele perceba; muitas vezes praticada por ele mesmo sem que se dê conta de que o que faz não é honesto, não é legal. não é moral.

Nos últimos dias talvez as pessoas que me acompanham nas redes sociais e/ou estão ao meu lado tenham me achado intransigente, intolerante e sem esperança. De fato, tenho reclamado muito do "estouro da boiada", com as pessoas gritando palavras de ordem soltas e impostas, sutil e subliminarmente, por grupos que querem apoio para alcançar seus próprios interesses.  Mas eu sou dura na queda. Acredito na capacidade do ser humano de escolher o caminho certo. Pode demorar mais pra uns que pra outros, claro!

As duas situações que vivi nas minhas andanças como mochileira coroa são fáceis de encontrar no Brasil? Certamente muitos dos que cobram o fim da corrupção diriam que quem não aproveitasse para beber sem pagar em Coro ou não aproveitasse para "pegar" algo da loja em Copacabana seria otário. Certamente completaria com um "quem manda eles serem vacilões?". Essa, lamentavelmente, é a nossa realidade.

Então, vamos cobrar o fim da corrupção sim! Mas vamos refletir sobre nossos atos cotidianos e mudar urgentemente se acharmos que quem é honesto e vacilão é quem confia na honestidade do próximo. A corrupção não está apenas na política. Na moral: são os vacilões e os otários dessas duas estórias que tem direito legítimo de dizer não à corrupção.

E você, de que lado está?