sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Solidão a dois não é amor

http://www.dinet.tv/passaros-e-cantos.html
Dizem que o passar dos anos faz com que mudemos nosso modo de pensar e agir; que nos tornamos mais maduros e capazes de enfrentar situações que na infância e juventude não conseguiríamos. Amar sem sofrer é um bom exemplo disso.

É comum vermos jovens, e pessoas nem tão jovens, que vivem amores - melhor dizendo, paixões - que lhe provocam sensações como se estivessem em uma imensa montanha russa: uma vida cheia de sobressaltos e, muitas vezes, alagada por lágrimas e marcada por brigas, dor e solidão a dois. Como já disse Cazuza em sua música Eu queria ter uma bomba, " solidão a dois, de dia faz calor depois faz frio".

Esse turbilhão ocorre primeiro porque pensam, cegos pela paixão, que  esse sentimento os tornará uma só pessoa. Quando percebem que não é bem assim como queriam, sofrem. Depois, tentam mudar a outra pessoa para que esta fique o mais próximo do que deseja que ela seja. Como não consegue, briga. E chora. E sofre.

Passam, então, a imaginar, até a adivinhar, o que a outra pessoa sente. Aí, enche a cabeça de caraminholas. Vê o que não existe. Ouve palavras não pronunciadas e nem mesmo pensadas pela outra pessoa. Sofre, indevidamente, por antecipação e fantasia.

Muitos são os casai que sofrem separados, mesmo estando juntos. Não conseguem ser eles mesmos, individualmente, nem o que o outro deseja que ele seja, porque nem mesmo DR (discutir relação) sabem fazer com sinceridade, com amor, com entrega.

Não sou psicóloga, vocês sabem, mas me permiti que a vida me ensinasse muito nessas 5,1 milhas. Uma das lições que aprendi é que ninguém adivinha o que você pensa ou sente. Se não quer sofrer por algo que lhe incomoda no outro, diga francamente: " Não gostei e não quero que faça mais isso comigo".

A oura lição é que achar que encontrou a sua outra metade não significa que  isso os tornará numa única pessoa. Cada um é um, que se complementam mas não se unificam. Podem, sim, viver uma relação de simbiose. São duas pessoas que, mesmo diferentes, podem viver em harmonia, em sintonia.

Não fique colocando fantasmas onde não existem. Se eles (os fantasmas) estão dentro de você, tenha coragem de apagá-los. Se não consegue só, procure ajuda de um terapeuta. Pare de ver  apenas os defeitos da outra pessoa, porque eles podem estar mais acentuados dentro de você mesmo. Não crie expectativas em relações à pessoa escolhida. Ninguém tem obrigação de ser o que você deseja.
Não se esforce para fazer a outra pessoa mudar para que, assim, vocês briguem menos. Tente começar a mudança por você mesmo. A sua mudança de atitude poderá ser mais eficiente e, aí sim, provocar a mudança e a harmonia desejada com quem ama.

Por fim, não tenha medo de amar ou de sofrer por amor. Entregue-se, principalmente se você vê que a outra pessoa tem carinho, paciência e respeito por você. Esses sentimentos são essenciais no amor. Naquele amor que não vai lhe levar às lágrimas por frustração, raiva ou ciúme, mas por se sentir pleno e confiante de que a vida a dois tem defeitos que não precisam manchar a tela que você imaginou. Potencialize os acertos.

Coragem! Você consegue!.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Quem tem coragem de ser pai investe na paz

Adoro filmes. No final de semana sou capaz de ver pelo menos uns três, se ninguém me tirar desse vício. Entre os que vi está um que diz exatamente o que penso sobre a responsabilidade dos pais na educação dos filhos como contribuição para a diminuição da violência e da delinquência infanto-juvenil. Corajosos - esse é o filme, produzido pelos irmão Kendrick (evangélicos) e com  Alex Kendrick interpretando o personagem principal.

Corajosos aborda o dever dos pais (especificamente do pai) em relação aos filhos. Trata de decisões tomadas por homens, amigos e policiais, que convivem diariamente com a delinquência na cidade onde moram.

Na esteira dos meus 51 anos e fazendo parte de uma família de 11 irmãos (na verdade são 17, mas isso é outra história), considero que a maioria de nós dessa geração perdeu a mão no preparo do bolo da vida para os filhos.

Saídos de uma infância e juventude reprimidos por muitas regras e limites, resolveram criar os seus filhos com mais liberdade. Aliás, total liberdade, sem nãos na convivência, sem regras ou limites.

Aliado a isso tem uma mudança cultural. Era comum, principalmente no interior onde nasci e cresci, que os homens tivessem a matriz e a filial, ambas de longas datas e com ambas tinham filhos. Os mais corajosos registravam as crianças. Poucos, é claro! Mas, mesmo aqueles que não registravam os filhos exerciam a função de pai provedor e regulador. Hoje, muitos também não registram seus filhos. Tampouco cumprem com os deveres da paternidade e nem mesmo conhecem os filhos.

Muitas mães, como disseram os Kendrick, bem que tentam assumir os dois papéis. Entretanto, a luta pela sobrevivência é tão mais árdua que as mães também estão fora de cara. A saída das mães para trabalhar fora de casa, aliás, é atribuída por meu marido, ao início dos problemas com o aumento da delinquência infanto-juvenil. E mãe, por mais eficiente que seja, não substitui a figura do pai.

É essencial a presença, com qualidade, dos pais. Não adianta satisfazer as necessidades materiais dos filhos se não são preenchidos os espaços do sentimento, com carinho e atenção, e do caráter, com exemplos emoldurados por princípios de ética e honra. Não importa se os pais vivem juntos ou não. Precisam, sim, cuidar juntos.

Poderemos ter menos violência num futuro próximo, sem precisar de bilhões gastos com armas e outros equipamentos de repressão e na construção contínua de presídios. O nosso futuro de paz pode começar agora mesmo em nossos lares. Basta cumprirmos nossa missão como pais (pai e mãe, mesmo que emprestados como eu) e lembrarmos que dizer NÃO é a forma mais difícil de amar. Difícil, mas não impossível.

Independentemente de qual religião professe, não devemos esquecer que Deus colocou os filhos sob nossa tutela para que os ajudemos a seguir o caminho do bem. Os Kendrick são evangélicos; eu, espírita. Se não assumirmos nossa missão no lar, dando aos nossos filhos a base do sentimento e do caráter, não poderemos chorar sobre o sangue derramada num futuro temido.

domingo, 6 de outubro de 2013

Me gusta Argentina. Me gusta los hermanos.



A richa no futebol entre o Brasil e a Argentina é clara. Aqui, nosso eterno rei é Pelé. Lá, Don Diego Maradona. Um lado sempre defendendo que o seu ídolo foi melhor que o do outro quando estavam na ativa pelos campos afora. 

Essa disputa é até engraçada, mas perde a graça quando se tenta levar essa briga para o dia a dia, principalmente no turismo. Antes de iniciar minhas viagens pela América do Sul sempre ouvi dizer que os argentinos eram mal educados e que tentavam passar a perna nos turistas brasileiros. Quando iniciei o curso de espanhol uma colega de turma destilou veneno contra os argentinos com argumentos semelhantes. Com tanta referência ruim, dava até medo de ir lá ao país vizinho.

Nas férias deste ano passei pela Argentina e trouxe uma cerveja para um amigo. Ao recebê-la, ele perguntou se estava envenenada. Oxe! Envenenada?!?! Por que estaria? “Sei lá, veio da Argentina e dizem que eles sempre tentam sacanear com os brasileiros”, respondeu-me. Taí... Fiquei boba! Isso é uma maluquice!

Em Mendonza ouvindo sobre vinhos.
 Por três anos seguidos eu e meu marido escolhemos percorrer pedaços da Argentina. Em 2011, quando fomos conhecer o trecho do Chile e Argentina contornados pela Cordilheira dos Andes, ficamos quase 15 dias entre San Martin de Los Andes, Bariloche e Mendonza, a terra do vinho. Em 2012, nossa escolha foi pelo Uruguai e Argentina. Passamos então por Buenos Aires, Mar Del Plata e San Antonio de Areco, passando ainda pelo Tigre com seu delta. Neste ano, como queríamos reviver a aventura de esquiar, voltamos ao Chile e Argentina, revisitando Buenos Aires, San Martin e Bariloche. Além de ter a oportunidade de conhecer cidades lindas, como Buenos Aires- com suas largas e floridas avenidas - e San Martin de Los Andes, um pedacinho Europa, cruzamos com muita gente simpática e gentil. Gente bonita. Gente hermana.

Em Buenos Aires essa gentil hermana se  ofereceu para nos ajudar
Como diz uma parábola, encontramos nos lugares aonde vamos aquilo que levamos no coração.  Meu marido e eu somos mais viageiros (ou viajantes) que turistas. Quando viajamos, abrimos nossa alma para aproveitar o que tiver de melhor nos lugares e suas pessoas. Quando falo o melhor não significa o mais caro. Simplesmente o melhor . Gosto de conversar. Tenho o bom costume de cumprimentar as pessoas, de pedir com educação e de agradecer a atenção ou o serviço que recebo.

Tenho procurado estudar (menos do que eu gostaria e deveria) pra falar pelo menos um pouquinho de espanhol, uma vez que temos visitado anualmente um ou dois países vizinhos da nossa linda América do Sul. Considero que, dessa forma, a conversa com as pessoas de lá pode fluir mais assim. Mas garanto que o que vejo nessas viagens são brasileiros que pensam diferente de mim. Conterrâneos arrogantes circulando pelas terras argentinas, esbanjando um dinheiro que provavelmente lhes fará falta. Brasileiros que exigem que os vendedores mais humildes entendam seu português gritado e acelerado; que se comportam com estardalhaço e falta de educação. Como se diz na minha terra, Paulo Afonso (BA), chegam aos montes sem se importarem de agirem como amundiçados (mal educados ao extremo).

Meu marido atribui essa bobagem de richa a Galvão Bueno.Da minha parte, penso que no futebol deve ganhar o melhor. Mas melhor será que na relação entre povos essas diferenças sejam anuladas.  Que meu amigo tenha bebido sua cerveja sem medo e com prazer.

Da minha parte, me gusta Argentina. Me gusta los hermanos.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Aquele beijo nunca mais esquecerei

Era a primeira semana outubro de 1977 e acontecia a novena de São Francisco em Paulo Afonso. O largo da Igreja de São Francisco, pouco mais que uma capela erguida em pedras na área do acampamento da Chesf em 1949, estava movimentado com o pequeno parque de diversões e as barracas de bebidas e comidas. Era um sobe e desce danado de jovens num clima de paquera. Em 3 de outubro, véspera do Dia de São Francisco e do fim da novena, minha irmã Vânia puxa  pra sentar na grama conosco aquele por quem havia quase um mês eu suspirava apaixonada na inocência dos meus 15 anos: Roberto, rapaz de Salvador, 20 anos. Dias antes ela tinha nos apresentado.

Passamos parte da noite sentados ao lado da igrejinha, próximos da Roda Gigante, ouvindo Roberto Carlos. Apesar de tímida, tive coragem de pegar na sua mão e observá-la. Você é cigana?, perguntou-me. Respondi que não e fiquei vermelha como se tivesse engolido uma pimenta. Mas continuei com sua mão entre as minhas.

Conversa veio e conversa foi. Por volta das 11 horas (da noite) resolvi ir pra casa e ele resolveu me acompanhar. Eu morava na rua L, por trás da Igreja. Minha casa ficava a menos de 1 km. Desde a saída meu coração já estava pra lá de feliz. Quando nos afastamos uns 50 metros, Roberto pegou na minha mão. Quase tive taquicardia. Olhei para nossas mãos e olhei para ele; fiquei muda de emoção. Caminhamos falando coisas que não recordo. Lembro apenas do calor da sua mão na minha.

A rua, com suas 23 casas, estava deserta. Todos estavam no largo da Igreja de São Francisco. Ao chegarmos defronte à minha casa (a 96), Roberto pegou minha outra mão e me puxou para um beijo. Sempre fui sonhadora e apaixonada pelo céu com a lua e as estrelas. Mas foi com este beijo, carinhoso e sem ousadia, que vi as estrelas mais lindas. Mais uma vez fiquei com o rosto queimando de tão vermelho. Foi apenas um beijo e ele foi embora. Levei horas para pegar no sonho, tão feliz estava.

No dia seguinte, Dia de São Francisco, voltamos a nos encontrar no largo da igreja. Ele pegou na minha mão, me deu um beijo nos lábios e me puxou para entrarmos no circuito do sobe e desce. Assim... sem pedido, sem dúvidas, estávamos namorando e ficamos assim até dezembro, quando ele voltou para Salvador. Por mais dois anos ficamos em um NAD - Namoro a Distância com alguns encontros presenciais e longas conversas pelo telefone, sem contas a pagar, uma vez que era pelo sistema da Chesf. Nosso último encontro presencial foi em 1979. A partir dali fomos nos perdendo de vista. Assim como não teve pedido de namoro, não teve afirmação de que tudo estava acabado. Somente depois de 10 anos nos reencontramos e reiniciamos nossa estória de amor. Devagar fomos reencontrando as emoções e o calor que o toque de nossas mãos provocava em ambos.

Todos os anos lembro do dia 3 de outubro de 1977. E sempre penso no que mudou entre as pessoas que se apaixonam. Hoje - aliás, há várias anos - vejo adolescentes e jovens apaixonados, mas inseguros. Não sabem se estão ficando ou namorando. Na maioria das vezes as meninas namoram meninos que dizem que estão "ficando" com elas.mas também tem meninos que acham que estão namorando meninas que os consideram apenas ficantes. Sempre disse ao meu filho que ficar numa festa é uma coisa. Ficar por seis meses é covardia de enfrentar os sentimentos. Ficam, mas permanecem "amarrados" como se namorados fossem. Por que não assumir que gosta de estar com a outra pessoa? Por que não curtir o namoro? Romance e amor bem vividos fazem bem à alma.

Você tem uma estória de amor? Que tal me contar?

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O difícil exercício de se colocar no lugar do outro.

Meu marido diz  que adoro ouvir a conversa dos outros. Não é bem assim; não fico ouvindo atrás das portas ou nas extensões dos telefones. É bem assim; não consigo deixar de ouvir as conversas quando estamos em locais públicos. Sempre dá pano pra manga.

Na semana passada, por exemplo, enquanto estava numa recepção da ala de consultórios do Hospital San Rafael, acabei ouvindo duas mulheres que estavam na fileira atrás de mim. Nessa tarde parece que muitos médicos atrasaram. Pelo menos estavam a minha e a delas - que não eram a mesma. Uma dessas mulheres reclama sem parar de que a médica - uma ginecologista - leva mais de meia hora no atendimento do paciente.

"_ Dá vontade de bater na porta...", diz.

Menos de um minutos depois ela dispara: " Dá vontade de ir embora, não vou mentir."

E o papo de críticas e lamentações prossegue enquanto o painel vai apitando e mudando os números das senhas, sempre na tônica de que cada consulta da tal médica é muito longa. Sinto vontade de olhar pra trás e perguntar se elas gostam dos médicos que fazem as consultas do tipo INSS (hoje SUS), que não levam nem cinco minutos e o paciente nem é examinado. Como nem sempre sou "abelhuda" e não estava disposta a ver um papo render, fiquei na minha e resolvi falar sobre isso aqui com vocês.

Segundo o censo de 2010 do IBGE, pelo menos 1,69 bilhão de pessoas se dizem cristãos (Católicos, evangélicos e espíritas, pelo menos) no Brasil. Acho que você sabe que o termo "cristão" se deu a quem seguia os ensinamentos de Jesus Cristo, né? Mas, porque será que a maioria não tenta seguir uma das orientações deixadas pelo líder Jesus Cristo, que está na Bíblia, que é "Amar o próximo como a si mesmo" ou trocado em miúdos, não deseje para o próximo o que não deseja para si mesmo.

No trânsito, é cada vez mais comum os motoristas que querem sempre passar na frente do “otário” que respeita o sinal, embora não dêem passagem pra ninguém quando estão na frente.


No banco, as pessoas pedem, descaradamente, para que um conhecido que está mais na frente na fila pague as suas contas ou façam o seu depósito; acham o máximo serem fantasmas da fila.

No médico, todo mundo quer ter um atendimento detalhado, com atenção e dedicação, mas reclama  se o médico está demorando um pouco mais com outro paciente, como no caso das mulheres da sala de espera.
Nesta e noutras situações cotidianas, as pessoas sempre agem de um jitó quando é consigo e de outro quando é com outro alguém.

Por que temos que dificultar tanto a vida? Por que não tentamos, pelo menos, nos colocar no lugar do outro? Acredito que assim teríamos menos conflitos no trânsito, nas filas de banco e nas recepções dos consultórios.

Do meu lado, procuro fazer a minha parte. Se o meu médico está com um paciente, não reclamo. Na minha vez gosto de tudo explicadinho e isso leva tempo. No banco, evito pedir favores a quem já está na fila. No trânsito, procuro respeitar as regras. Agora, se o pedido de passagem é pra dar “roubadinhas” em áreas de conversão proibida, não conte comigo. Se eu posso respeitar as regras, você também pode e deve.

Pelo que vemos, não é fácil se colocar no lugar do outro. Você tenta?
 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Quem não é corrupto é otário e vacilão

Em nossas andanças pelos países vizinhos vivi duas situações interessantes que nos fez refletir sobre o Brasil e que tem tudo a ver com os gritos de protesto das infinitas manifestações.

Equipe da Tum Tum surpreende com confiança
Em outubro de 2008 andamos pela Venezuela, onde o povo se dividia entre o endeusamento de Hugo Chaves e a sua execração. Passamos dois dias em Coro, uma das cidades mais antigas do país e reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO desde 1993. Também conhecida por Santa Ana de Coro, é a capital do estado de Falcón e do município Miranda. Mas não quero falar de geografia. O fiz apenas para lhe situar. Em Coro, ficamos na pousada Tum Tum, que nos foi indicada por uma pessoa em Mérida, e que estava em transição de gestão. A dona, Angélica ( belga), tinha acabado de vender para o casal Damien (francês) e Norka (Venezuelana).

Na primeira manhã Roberto perguntou se tinha cerveja. Sim. Long neck. Pediu duas. A belga disse que pegasse no frezer que estava no salão da recepção (que ficava no fundo, próximo ao pátio). Ao tirar a carteira para pagar, a surpresa. Anote aí no quadro cada vez que pegar uma; quando fechar a conta da pousada você paga tudo. A gente mesmo anota? Sim. Olhamos e vimos um quadro de pouco mais de um metro, onde já tinha alguns nomes escritos e ao lado uns tracinhos. Isso funciona? Sim, respondeu a moça sorrindo. Nos entreolhamos e sorrimos.

Em Copacabana, Bolívia, crença na honestidade
Em outubro de 2009 quando nossas mochilas circulavam por Copacabana - não a brasileira/carioca, mas a boliviana -, nos surpreendemos com o respeito e a tranquilidade dos nativos e dos turistas que passavam por ali. Em uma das ruas que leva às margens do Lago Titicaca, onde se concentram restaurantes e lojinhas de artesanato, uma das lojas nos chamou a atenção. Aberta, mas sem ninguém. Um cabo de vassoura sobre duas cadeiras na entrada impedia o acesso das pessoas. Perguntamos aos vizinhos pelo vendedor e nos disseram que ele precisou sair (ao banheiro, se não me engano).  Disse que era comum isso por ali. E ninguém entra ou rouba? Não.

A reflexão que fizemos nesses dois casos é bastante apropriada para este momento em que tantos tem ido às ruas clamar pelo fim da corrupção no Brasil. Não pude parar de pensar em como a corrupção está inserida no cotidiano de cada cidadão sem que ele perceba; muitas vezes praticada por ele mesmo sem que se dê conta de que o que faz não é honesto, não é legal. não é moral.

Nos últimos dias talvez as pessoas que me acompanham nas redes sociais e/ou estão ao meu lado tenham me achado intransigente, intolerante e sem esperança. De fato, tenho reclamado muito do "estouro da boiada", com as pessoas gritando palavras de ordem soltas e impostas, sutil e subliminarmente, por grupos que querem apoio para alcançar seus próprios interesses.  Mas eu sou dura na queda. Acredito na capacidade do ser humano de escolher o caminho certo. Pode demorar mais pra uns que pra outros, claro!

As duas situações que vivi nas minhas andanças como mochileira coroa são fáceis de encontrar no Brasil? Certamente muitos dos que cobram o fim da corrupção diriam que quem não aproveitasse para beber sem pagar em Coro ou não aproveitasse para "pegar" algo da loja em Copacabana seria otário. Certamente completaria com um "quem manda eles serem vacilões?". Essa, lamentavelmente, é a nossa realidade.

Então, vamos cobrar o fim da corrupção sim! Mas vamos refletir sobre nossos atos cotidianos e mudar urgentemente se acharmos que quem é honesto e vacilão é quem confia na honestidade do próximo. A corrupção não está apenas na política. Na moral: são os vacilões e os otários dessas duas estórias que tem direito legítimo de dizer não à corrupção.

E você, de que lado está?

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Internação compulsória - uma polêmica luz no fim do túnel


A Câmara Federal aprovou em plenário, nesta semana, o projeto que muda o Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas (Sisnad) e que prevê a internação involuntária para dependentes químicos, entre outras modificações. A votação ainda não é conclusiva para que o projeto possa seguir para o Senado, porque falta a apreciação de destaques ( instrumento regimental pelo qual os deputados podem retirar (destacar) parte da proposição a ser votada, ou uma emenda apresentada ao texto, para ir a voto depois da aprovação do texto principal). 

A proposta é polêmica dentro e fora do legislativo. Incomoda àqueles que são contra a internação. Alguns, inclusive, associam o processo à retomada dos manicômios. Outros, milhões, tenho certeza, tem a notícia como uma luz no final de um túnel ou no fundo de um poço; como uma chama de esperança de resgaste de familiares queridos que se prenderam, e se perderam, na viscosa armadilha das drogas, em especial do crack.

Quem tem algum dependente químico na família - seja usuário de drogas químicas ou de álcool - já ouviu de terapeutas e especialistas que vencer a adicção depende muiiiito mais da vontade do dependente que do tratamento. Daí que muitas clínicas, principalmente as particulares (que são maioria e caras), só aceitam tratar de pacientes que demonstrem o desejo de abandonar as drogas. Internar sem a vontade da pessoa é jogar dinheiro fora, dizem. 

Não discordo do todo desses argumentos. Conheço pessoas cujos familiares já foram internados inúmeras vezes e após três ou seis meses enfrentam recaídas seríssimas, destruindo carreira profissional, estudo e, pior, depenando a própria casa e tirando a paz da família. 

Há clínicas que fazem internação involuntária. Muitas delas comunidades terapêuticas sob coordenação de igrejas, de pessoas que acreditam firmemente que a fé pode remover montanhas. Mas a grande parte das famílias brasileiras enfrentam é a falta de clínicas públicas que ofereçam tratamento contra a dependência química.

Pesquisa da Universidade federal de São Paulo, divulgada em 2012, aponta que o Brasil  representa 20% do consumo mundial e é o maior mercado de crack do mundo (veja mais) Apesar disso, programas governamentais oferecem apenas atendimento ambulatorial, esquecendo que quem está tomado por uma droga dificilmente terá o discernimento do que é melhor para si. Você consegue imaginar um usuário de crack indo, sozinho e voluntariamente, a um CAPS? Raro, porque exceções existem.

Sou a favor da internação involuntária, sim! mas volto a defender que medidas preventivas devem ser adotadas com urgência, com inclusão da adicção por drogas químicas nos programas de prevenção do governo, como já sugeri antes (veja aqui).

Volto a defender que a maior prevenção começa no seio da família. Tenha olhos de ver seus filhos, ouvidos  e ouvi-los, braços dispostos a acolhê-los em um abraço e mente alerta como deve ser um gestor? Gestor? Sim, pais são gestores de família e devem saber que regras são necessárias para que a harmonia se estabeleça; saber a hora do sim e do não.

Se a família falha na lapidação e educação dos filhos; se as escolham falhas na orientação pela ausência de campanhas educativas; se o governo falha na oferta de programas desportivos e atividades culturais gratuitas e em campanhas e ações preventivas... então a solução para a família do dependente químico é a internação, seja ela voluntária, involuntária ou compulsória, como tem ocorrido no Rio de Janeiro e São Paulo.

domingo, 12 de maio de 2013

Amor de mãe independe do ventre

Depois de algum tempo sem confabular com vocês volto a escrever. No Dia das Mães não poderia deixar de abrir meu coração mais uma vez. Quero falar sobre o amor de mãe - não apenas daquela que carrega um bebê por meses no útero, mas daquelas que os carregam no útero da vida por todo o sempre desde o seu encontro com aquele ou aquele a quem tem como filho.

O desconhecimento de muitas pessoas sobre a intensidade possível do amor de uma mulher por um filho que não saiu do seu ventre ainda é muito grande. Não sei se por preconceito, por arrogância ou por medo. Sim. Preconceito, porque ainda tem muita gente que acha que quem pariu é que deve balançar o berço ou que sabe balançar o berço. Mas não falo do berço - cama. Falo da vida, do cuidar, do amar. Arrogância, provavelmente por achar que pode ser melhor que outras mulheres porque teve a capacidade de gerar em seu ventre. E medo, porque no fundo sabe que para amar não é necessário que o filho tenha o mesmo sangue, que se pareça fisicamente com você...

Foto no seu aniverário de 26 anos (em junho fará 29)

Meu filho Acácio - Cacá -  me foi trazido na mala por meu querido Roberto. Quando o conheci ele tinha 4 anos e meio e vivia a dor da separação dos pais há pouco mais de seis meses. Ainda como amiga de Roberto, procurei lhe dar carinho. Depois, como namorada, companheira e mulher do seu pai, amor da adolescência reencontrado na vida adulta, procurei lhe dar carinho, amor, educação, sins e nãos mesmo sem ele ter sido gerado dentro de mim.  Algumas amigas me sugeriam evitar ser mãe e ser apenas amiga. "Não se desgaste", recomendavam, quando me preocupava com seu rendimento na escola.  Mas não sei amar pela metade. Não podia ter uma criança ao meu lado e não buscar contribuir para o seu crescimento espiritual, moral e intelectual.

Tivemos conflitos como qualquer mãe e filho. Creio termos carinho, amor e respeito do mesmo jeito que mãe e filho biológico. Até a sua mãe biológica, Isa (que retornou ao plano espiritual há pouco mais de quatro anos), percebeu que o meu amor e o meu cuidado não o roubaria dela e me permitiu ser a segunda mãe quando ele entrava na adolescência. Nossos cuidados se complementavam.

É certo que sofri e chorei muito por não terem vindo irmãos para Acácio. Mudanças na natureza impossibilitaram esse sonho. A maternidade via adoção não foi concretizada porque é preciso dois "quereres" - de uma mãe e de um pai. E Roberto, por desconhecimento, preconceito e medo, nunca quis. Não desisti do sonho de uma família com três filhos. Por acreditar em reencarnação, ambos, assumimos um compromisso para um futuro vindouro.


Além de Cacá dedico meu amor de mãe a dois dos meus sobrinhos. Amo a todos os 26 filhos das minhas irmãs e irmãos, mas as circunstâncias me fizeram dedicar atenção especial, em muitos momentos, a Val e Junior. Sei, e eles sabem, que são filhos biológicos de minha irmã Mirian e meus filhos do coração e da minha irmã Aparecida. Amamos, cuidamos, perdemos noite, repreendemos, estimulamos ... amamos um amor de mãe.

Hoje, Dia das Mães, grito ao mundo o meu orgulho de ser mãe emprestada ou mãe nº 2 ou madastra, ou tia-mãe. Parabenizo a todas as mães que tem filhos do coração, seja a forma que foi o acolhimento.  Parabéns também às mães biológicas e aos pais que criam sozinhos seus filhos, assumindo funções de mãe.

Sei que todos os dias são das mães, dos pais e dos filhos. Mas lembro a todas as mães que amar é também saber dizer não. Que Deus lhes (me) dê sabedoria para saber o momento das permissões e das negações. Quando nossos filhos crescem sabendo a importância do sim e do não, tem mais chance de serem pessoas melhores e de contribuírem para um mundo de paz.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Falta de educação marcam cerimônias de formatura

Com 12 anos e meio tive autorização para ir à formatura do meu pai em Administração. Na década de 1970 era tradição as formaturas do colegial (que depois foi chamado de científico, depois de 2º grau e atualmente de Nível Médio). Se você é tem menos de 40 anos, talvez não saiba o que isso representava. Era uma honra recheada de emoção para uma garota, principalmente porque teria a oportunidade de ver como era um baile. Crianças ou pré-adolescentes não participavam de eventos à noite.

Junto com o pacote de sonho veio o meu primeiro vestido longo. Tudo simples, sem brilhos, mas, aos meus olhos, lindo: rosa, com alça em V e marcação sob os seios. Era a segunda formatura de Nilton Cavalcante Amorim; dois anos antes ele se formara em Contabilidade. Era o máximo que se chegava em Paulo Afonso (BA), onde ainda não havia faculdades.

Toda a solenidade acontecia no Clube Paulo Afonso (COPA). A entrega dos diplomas e o baile. Tudo com muita formalidade e respeito. Lindo! Um a um dos formandos eram chamados e entravam com seu par. No caso de papai, minha mãe.Eles ficavam perfilados e iam sendo homenageados com seus diplomas, e aplaudidos por todos. Depois vinha o baile, com a valsa que eu amava!

Nestes últimos três anos tenho ido à solenidades de formatura dos filhos de amigos-vizinhos e do meu próprio filho. Desta vez formaturas em cursos de nível superior. E vou apenas para participar deste momento tão importantes para formandos e seus pais. Na de Acácio, pelo óbvio. Mas fico frustrada e constrangida a cada vez, confesso. Em minha opinião, o ritmo dado às formaturas pelas agências de eventos especializadas e pelos próprios formandos, com a complacência das faculdades, fez com que se perdesse a elegância, a formalidade, o glamour. Fez com que ganhasse a marca da falta de educação.

As cerimônias de formatura viraram uma baderna, convenhamos. O silêncio respeitoso foi substituído pelo barulho ensurdecedor de cornetas que são tocadas incessantemente próximas aos ouvidos de quem está sentado na fila da frente. Os aplausos indistintos a todos os formandos por sua conquista foram substituídos pela barulhenta torcida de cada um. Uma aberração; o máximo da falta de educação! A cada formando chamado para colar grau e receber o diploma, de um salão imenso ( como é o caso Salão Iemanjá do Centro de Convenções da Bahia) apenas os seus convidados se levantam e aplaudem. Todo o resto fica quieto em seu canto, com cara de tédio e de "que horas isso vai acabar?". Se o grupo é grande, o barulho é proporcional. Se o aluno é de outra cidade e tem apenas dois ou três convidados, fica um silêncio constrangedor. Que feio!!!

Ainda tem o fato de que o mestre de cerimônias foi substituído por dois formandos. Como um homenageado pode conduzir a cerimônia??!! Pais corujas podem até achar uma graça seu/sua filho(a) gaguejar ao ler, pela emoção e pela falta de experiência, as características dos colegas. Mas, tecnicamente, é deselegante. Formando  é formando. Mestre de cerimônia é mestre de cerimônia.

Apesar de achar uma boa homenagem aos pais, cônjuges e outros parentes subir ao palco e participar mais ativamente da cerimônia, acho um equívoco a entrega do canudo a um dos pais para que este o entregue ao filho. Quem se forma é o aluno. Quem forma é a faculdade. Então, quem deve receber das mãos do representante da escola é o formando. Aos pais caberia a comemoração, o abraço, a foto para a posteridade.

Definitivamente não gosto dessa roupagem pós moderna das formaturas. Se há a opção por uma cerimônia formal, com beca e roteiro solene, que assim seja. Que a educação seja restaurada e todos aplaudam todos. Que o aplauso e assovios - vá lá! - sejam as únicas formas de homenagem por parte dos convidados. Cornetas ficam melhor em jogos da Copa do Mundo. Que formandos sejam apenas formando e não cerimonialistas. Que usem a tribuna apenas para o juramento e o discurso do orador da turma. E que as faculdades assumam o comando das suas cerimônias de formatura. A informalidade deve ficar para depois, para a festa, onde a música fará par certo com a alegria extravasada.

Você pode  discordar e até achar exagerado e intolerante o meu pensar, mas, definitivamente, tenho saudade das formaturas dos velhos tempos.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Reflexões sobre a renúncia do papa Bento 16

Tenho uma mania que não sei se é boa ou ruim. Em minha opinião, acho boa. Mas, não sei o que você, leitor, pensa. Esta minha mania é a seguinte: sempre que tomo conhecimento de um fato de grande repercussão tento me colocar no lugar... tento saber como eu agiria. Será que sou corajosa assim? Será que sou honesta como tal pessoa? Será que sou capaz de amar como esta outra? Será que perdoaria em tal situação? Claro que nem sempre tenho as respostas. Nessa semana que acabou o meu exercício foi motivado pela renúncia do papa Bento 16. Será que tenho humildade para admitir minha incapacidade para alguma coisa?

A renúncia do papa pegou todo mundo de surpresa na segunda-feira, 11. Afinal, a última renúncia ( houve três outras) aconteceu há mais de 600 anos. Especulações sobre pressões internas no Vaticano também não faltaram para encontrar justificativas. Mas não quero confabular sobre a política do Vaticano ou o impacto dessa renúncia sobre o mundo católico. Quero falar do ato de admitir ser ou estar incapaz para alguma coisa.

Em sua declaração oficial, Bento 16
( Joseph Ratzinger) disse:

" [...] Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado.[...]"

Esse trecho da declaração de Bento 16 é ou não um ato de humildade? Será que eu conseguiria ter essa atitude? Será que você teria? Sei que você pode dizer que ele já vai fazer 86 anos, está velho e cansado e 'tava na hora de dar a vez a alguém mais jovem, com propostas mais progressistas.  Mas também não quero conduzir nossa confabulação por aí.

Muitas vezes somos testados sobre nossa humildade nas coisas mais simples do dia a dia. Nem sempre, evidentemente, convivemos bem com isso. Temos que provar que somos bons em tudo o que nos propomos. Que somos incansáveis e eternos. Que nunca adoecemos, que nunca sofremos, nunca choramos, nunca temos vontade de parar tudo e ficar quietinhos, sem fazer nada, só descansando. Ser humilde parece ser fraco.

Mesmo que Bento 16 não tenha exalado a mesma energia e carisma que João Paulo II, com esse seu ato passei a admirá-lo. Não é qualquer um que solta assim o bastão de uma religião com mais de 1 bilhão de seguidores no mundo. Não é fácil renunciar ao poder. Que o diga nossos governantes.

Antes de publicar esta confabulação conversei sobre isso com o meu marido. Perguntei-lhe se ele seria capaz de renunciar. "Por que não?", respondeu. "Você acha que não é capaz?". Disse-lhe que não tinha certeza. "Esqueceu que você renunciou ao trabalho da Defensoria (Pública da Bahia) ?" De fato eu tinha esquecido. Trabalhava em dois lugares e planejava deixar um deles em 2010. Queria permanecer na coordenação de Comunicação da DPE. Mas, justamente por ser a mais desafiadora e que me exigia muita dedicação, tive que renunciar a ela quando passei a engordar a estatística de hipertensos. Foi uma decisão difícil e chorei muito quando a tomei. Precisava cuidar mais da saúde.

Queria saber de você: já renunciou alguma vez algo importante para você? Foi difícil? O que motivou sua decisão? Se você fosse o papa, teria renunciado? Venha cá e confabule comigo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Amar todos os dias ajuda nas despedidas


No domingo passado li e compartilhei um mensagem atribuída ao espírito André Luiz, psicografada por Chico Xavier. Ela diz assim:

“Se tiver que amar, ame hoje. Se tiver que sorrir, sorria hoje. Se tiver que chorar, chore hoje. Pois o importante é viver hoje. O ontem já foi e o amanhã talvez não venha.

Fiquei confabulando com meus botões: será que tenho feito isso? Numa rápida revisão das minhas atitudes acho que sim. Pelo menos na maioria das vezes. Em minha casa pratico a terapia do abraço e do beijo.  Não saio de casa sem dar um beijo em meu marido e meu filho. Ao voltar, faço a mesma coisa. Quando meus pais ou meus irmãos estão em minha casa, faço a mesma coisa. Abraço. Beijo. Minha mãe se derrete com beijinho nos olhos. Criei até o abraço de caranguejo que tem feito sucesso porque, além do amor transmitido, é uma rápida massagem. Não sabe como é? Eu lhe ensino, pois aprendi ao ver caranguejos em um viveiro na praia da Sereia, em Maceió..


Abraço de caranguejo:

Abrace a pessoa, cruzando os seus braços no meio das costas dela. Depois, com as mãos espalmadas, vá passando essa mão do meio para fora. Faça isso da cintura até perto dos ombros. Faça esse movimento com pressão, passando todo o amor que você sente. A sensação será a de que sua mão se multiplicará.


Desde adolescente preferi observar e não repetir ações que tenham causado dor em pessoas perto de mim. Não acredito muito  na velha frase que só se aprende errando. Não! Podemos aprender observando também.  Como já ouvi relatos de casos em que pessoas que saíram de casa brigados com filho, marido, irmão ou pais e não tiveram oportunidade de fazer as pazes por um ou outro ter morrido, prefiro não arriscar. Sei lá o que vai acontecer no próximo minuto!

Também no domingo fomos surpreendidos com a tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), com 232 jovens mortos até o momento. Não consigo deixar de pensar em quantos deles deixaram de dizer ou fazer algo que queriam, mas preferiram adiar para curtir a festa acreditando que, por serem jovens, teriam todo o tempo do mundo. 

Penso nos pais, irmãos, amigos... Quantos deles terão, além da dor pela brusca e trágica separação,  a culpa de não ter demonstrado o amor que sentiam em sua plenitude, de não ter perdoado falhas e mágoas por ventura provocadas anteriormente?

Aí, lembro de uma palestra que assisti do espírita Luiz Bassuma, onde ele falou sobre "estar de malas prontas" para o regresso. É, segundo ele, um exercício diário de avaliação das atitudes. Se eu morresse hoje, levaria alguma culpa por algo que fiz ou deixei de fazer? Tenho rancor guardado em meu coração?  Fiz a alguém o que não gostaria que fizessem a mim? Um exercício difícil, convenhamos. 

Como um adicto e/ou um alcoólico em recuperação, sou uma pessoa autoritária, sem tolerância e paciência com muita coisa, mas em recuperação. Fico mansa um dia de cada vez. Só por hoje. Procuro não guardar rancor ou mágoa. Procuro exercitar o perdão - embora pouco ou quase nada tenha a perdoar. Tento não esperar muito das pessoas e, para não sofrer por causa do esquecimento de alguém querido pelo meu aniversário, antecipo-me e alardeio que meu aniversário é naquele dia e que estou buscando meu abraço, meu carinho... a depender da pessoa, claro, o meu presente. Com meu pai e minha mãe,ligo para eles no interior, inclusive, para agradecer por eles terem viabilizado a minha vinda nesta encarnação. Isso não quer dizer que não tenho recaída. Tenho, sim. E como!!


Sabe, Chico Xavier disse certa vez que:


“Deus nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela, corre por nossa conta.”

Tenho procurado colocar coisas boas, que me façam leve e feliz e que levem alegria e felicidade para os que estão ao meu lado.

E você? Tem feito seu exercício? Tem coragem de estender a mão primeiro em uma aliança de reconciliação e paz?  Tem revisado sua mala diariamente para não ser surpreendido com uma separação inevitável, em uma data desconhecida, daqueles que tem um lugar em seu coração? Permita-se fazer boas inscrições nas páginas do seu livro do tempo. Assim, garantirá que, em uma partida inesperada, seu coração seja tomado apenas pela saudade, jamais pela culpa.

Converse comigo. Conte-me o que pensa sobre isso.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Somos todos deuses?

Retomo minhas confabulações, suspensas em novembro do ano passado. Como promessa de ano novo quero me determinar a confabular com vecês ao menos uma vez por semana, estejam onde estiver. Hoje minha cabeça está tomada por um pensamento: será que somos todos deuses? Devemos ser ou pensamos que somos. Explico.

http://www.depquimicaesociedade.com.br/index.php/plano-integrado-de-enfrentamento-ao-crack/Ontem, um amigo do Facebook compartilhou em apoio uma postem de alguém que dizia que todos os viciados em crack deveriam ser executados porque só dão despesas aos cofres públicos. Ele se posicionou contra a internação compulsória e defendeu que os dependentes da droga deveriam ser colocados em um navio e serem afundados no mar. Vixe! Não é por aí!

Hoje, enquanto termino o café da manhã e me levanto para ir ao trabalho, ouço uma chamada do noticiário da globo dizendo que um ministro do Japão defendia que os idosos doentes deveriam ter a morte acelerada pelo mesmo motivo: despesas para os cofres públicos. Um sonoro "Oxi, tá doido?!!" foi a minha reação. Só vi a matéria na íntegra depois.

Com duas situações seguidas da outra estou me perguntando se somos deuses. Só Deus, afinal, pode dizer quando a vida deve acabar. Claro que muiiiita gente não liga pra isso e sai tirando a vida do outro e até a sua própria. Mas acredito que a vida se extingue, naturalmente, quando tem que ser.

Sei pessoalmente dos problemas que são causados por usuários de droga. Mas nem por isso acho que eles tem que ser executados. Evidente que na loucura provocada pelo vício muitos deles procuram, inconscientemente a própria morte - seja por overdose, por um traficante a quem deve ou pela polícia em uma suposta reação.

http://silylandia.blogspot.com.br/2011/03/respeite-o-idoso.htmlSei que as pessoas estão vivendo mais porque, mesmo com toda a miséria que ainda existe no mundo, a qualidade de vida melhorou. Infelizmente muitos passam dos 80 anos sem a saúde que gostariam de ter e/ou que gostaríamos, como familiares, que tivessem. E sofremos ambos - eles e nós.

Coincidentemente, os dois casos estão relacionados diretamente com família. E aí me pergunto: será que as pessoas esquecem que a roda da vida gira e, com isso, o que vai, volta? Os dois casos, em minha opinião, refletem falta de amor. As famílias estão desestruturadas, com os pais se omitindo dos seus papéis e fazendo as vezes, apenas, de fornecedores. Desde bebês os filhos crescem sem saber que há limites, que existe o não, que todas ação tem uma reação e que cada ato traz uma consequência.

De criança se pode entrar em uma armadilha da droga e não conseguir sair dela facilmente, principalmente se os pais não tiverem grana para bancar as caras clínicas ou comunidades terapêuticas espalhadas pelo Brasil. As ações públicas para o tratamento de drogadas, antes da internação compulsória de São Paulo e futuramente da Bahia, se limitavam a ações psicossociais ambulatoriais via CAPs ou outros centros. Quem tá no fundo da lama não consegue discernir o que é melhor para si.

Quando alcançamos a idade avançada sofremos consequência de como vivemos daí pra trás. Se vivemos com qualidade, teremos velhice com qualidade. Para o oposto, uma vida com danos ao corpo, mente e alma nossos de cada dia.

Verbas públicas são desviadas todos os dias no Brasil e no mundo. Se fossem destinadas à educação, à moradia, à geração de emprego, à alimentação, prioritariamente, teríamos que gastar bem menos com a saúde.

Portanto, vamos ser menos deuses, colocar nossos pés no chão e fazer a parte que cabe a cada um nesta caminhada: cuidar de quem está sob sua responsabilidade, amando, educando, respeitando. Vamos ajudar a salvar aqueles que ainda podem ser salvos. Afinal, como diz a frase atribuída a Edmund Burke, para que o mal vença basta que os bons não façam nada. Vamos deixar que Deus defina quem vai, e quando vai, morrer.

Qual a sua opinião sobre isso? Confabule comigo.