domingo, 30 de outubro de 2011

Eficácia da metodologia dos Alcoolicos e Narcóticos Anônimos na berlinda

Certa vez, ao conversar com um adicto que passou 50 dias internado para tentar se livrar da dependência das drogas, ele me dissera que desistiu de ir para as reuniões do NA. Segundo ele, os encontros com o grupo os deixava sempre pra baixo, quando o que ele buscava era algo que lhe desse forças para continuar "limpo". O motivo: no grupo que frequentava havia poucos ou quase nenhum relato de alguém que conseguisse ficar muito tempo sem recair. Era comum, segundo ele, recaídas semanais. E ele preferiu caminhar só. Uma boa solução? Não, segundo John E. Burns, doutor em Administração de Programas de Tratamento de Dependência Química. Em sua opinião, o melhor para o pós tratamento é o grupo. É nele que está o poder.

John Burns, com quem conversei também sobre o tratamento de adolescentes, disse que apenas 30% dos dependentes que se submetem  a tratamento de 30 a 90 dias, alcançam uma recuperação. Mas que essa propabilidade  cresce para 60 a 80% quando o dependente químico participa de atividades em grupos posteriormente à internação por cerca de 2 anos. Isso se dá porque o grupo está sempre em fluxo: pessoalmente, emocionalmente e fisicamente.

Mas esse especialista admite que o modelo atual dos AAs e NAs está com data de validade vencida, vamos dizer assim. Burns disse que é grato ao AA, que muito o ajudou quando precisou, mas lamenta que eles tenham virado um culto rígido aos 12 passos. Por isso defende a necessidade de esses grupos modificarem suas metodologias, usando novas dinâmicas. Talvez aí esteja o sucesso, nos Estados Unidos, do Smart Recovery. Em sua opinião, é preciso entender que o tratamento da dependência química é uma arte e não uma ciência.

John E. Burns durante sua palestra no VI Simpósio de Alcoologia e outras drogas.
Em sua palestra Uma abordagem cognitivo comportamental: Smart Recovery, no VI Simpósio de Alcoologia e outras Drogas, promovido pelo Vila Serena Bahia, John Burns destacou que nos Estados Unidos centros de tratamento de curto prazo estão sendo substituídos por instituições de longo prazo que são financeiramente viáveis. Entre os modelos citou pensões, condomínios, escolas, empresas, igrejas, clubes recreativos e esportivos, cafés, clubes de livros e programas de rádio e televisão. Ele lembra que o tratamento em grupos tem a vantagem de não ter custo, ao contrário das internações curtas.

Em relação ao Brasil, Burns parabenizou o governo pela recente Resolução – RDC 29, de 30 de junho de 2011, editada pela Anvisa, que prevê no parágrafo único do Art. 1º , que “o principal instrumento terapêutico a ser utilizado para o tratamento das pessoas com transtornos decorrentes de uso, abuso ou dependência de substâncias psicoativas deverá ser a convivência entre os pares (...)”. Para ele, é o reconhecimento que o poder está no grupo e que este é o seu próprio terapeuta.

Mas isso não significa que assistentes sociais, psicólogos e terapeutas sejam dispensáveis. Tanto que Burns também elogiou a iniciativas de algumas empresas no Brasil que estão investindo em tratamento de dependência em grupos, com a supervisão desses profissionais, oferecendo chance de recuperação aos funcionários, em vez de demiti-los e criar um problema social.

Qual sua opinião sobre a metodologia dos NAs e AAs? Conte pra gente.

Reinserção social é fundamental na recuperação de adictos adolescentes


Ter acompanhado na manhã de sexta-feira, 28/10, o VI Simpósio sobre Alcoologia e Outras Drogas, promovido pela Vila Serena Bahia em Salvador, me deu a oportunidade de encontrar eco para outras avaliações que eu já tinha feito através das confabulações no Forquilha, como o combate ao crack  e olhos fechados para as drogas. Uma delas é a de que nenhum país vai conseguir tirar seus adolescentes da dependência química se não trabalhar com a reinserção social.

Conversando com o doutor John E. Burns, fundador da Vila Serena no Brasil
Tive essa confirmação com John E. Burns (EUA), doutor em Administração de Programas de Tratamento de Dependência Química, psicólogo, teólogo e mestre em sociologia que há 30 anos fundou a Vila Serena no Brasil a partir de experiências adquiridas enquanto se tratava, nos Estados Unidos, da dependência do álcool. Depois de assistir pedaços de sua palestra sobre o Smart Recovery, considerado uma ferramenta de auto monitoramento para o dependente, pude conversar com ele, que me garantiu: o caminho para se livrar do vício é a mudança de atitude, de modo de viver.

No caso do adulto (isso considerado por ele como uma pessoa acima dos 18 anos de idade), o caminho é a terapia em grupo. No caso do adolescente, é a oportunidade de tratamento e a garantia da reinserção social. Isso quando falamos de meninos e meninas pobres, porque para os de classe média e alta, a situação é diferente. John Burns diz, no alto da sua experiência, que os adolescentes das classes média e alta tem resistência em mudar; enquanto os pobres não tem como mudar.

Então não bastaria os governantes apenas encararem a dependência química como caso de saúde pública, como defende Ricardo Restrepo. É preciso investir em educação, desporto, moradia, capacitação profissional e oportunidade de trabalho. Caso contrário, lembra Burns, ao sair de um tratamento o jovem voltaria para o mesmo lugar e estaria fadado a se envolver, mais uma vez, com as drogas. Então, não adianta  investir em CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou ampliação de leitos psiquiátricos para o tratamento da dependência, porque a recuperação para a dependência de qualquer droga depende da mudança de vida; a substância é circunstancial.

Você que está confabulando comigo tem algum tipo de dependência? Está disposto a mudar de vida? Então siga em frente. Se quiser, você consegue.

Na próxima confabulação trataremos da questão dos grupos de pós tratamento da dependência. John Burns considera que os tradicionais grupos de pós tratamento de dependências precisam se atualizar para conseguir contribuir com uma recuperação mais prolongada do adicto, seja ele dependente de drogas lícitas ou ilícitas.

Até lá.



Droga é caso de saúde pública e não apenas de polícia

Na última sexta-feira, 28/10, acompanhei os trabalhos do VI Simpósio de Alcoologia e Outras Drogas, promovido anualmente pela Vila Serena Bahia, uma instituição privada que trata de dependências: químicas ou não. É um tema muito interessante até porque diz respeito a cada um de nós, mesmo para aqueles que não sofrem por ter um adicto na família. Um dos palestrantes que mais me chamou atenção, pela manhã, foi o psiquiatra colombiano Ricardo Restrepo, residente há 17 anos nos Estados Unidos e diretor da clínica de psicofarmacologia e adicção do Instituto de Adicção de Nova York (EUA).

Ele disse, com a autoridade de especialista que é, o que eu já comentei no Forquilha em relação à políticas governamentais no Brasil e Bahia para esta área: " É preciso que a dependência de droga seja tratada como uma questão de saúde pública e que o tratamento seja de forma integrada entre as diversas especialidades, porque os riscos são clínicos e psicológicos."

Como estava contribuindo com a Vila Serena na divulgação do evento, pude conversar bastante com o simpático Restrepo. E aí ele me explicou porque a dependência química tem que ser tratada como saúde pública de forma integral: quem usa drogas, lícitas ou não, pode desenvolver aids, tuberculose, infecção pulmonar e problemas cardiovasculares, além de transtornos mentais.A sua estimativa é que cerca de 30 a 40% das pessoas que usam alguma substância psicotrópica acabam desenvolvendo enfermidade mental.


Dr. Ricardo Restrepo e eu, no VI Simpósio de Alcoologia e Outras Drogas.
 E aí temos dois problemas, comuns, segundo Ricardo Restrepo, a todos os países, não só os latinoamericanos: falta de capacidade de profissionais de saúde pública que lidam com adicto, que não sabem dar o diagnóstico correto, e a falta de vontade política dos governantes em tratar a questão como caso de saúde pública. Ele me garantiu que poucos profissionais, atualmente, estão habilitados para identificar enfermidades mentais em dependentes químicos.

Com este quadro, Ricardo Restrepo defende que escolas de Medicina tornem obrigatório, na graduação, o ensino de disciplinas sobre enfermidades mentais e uso de substâncias que causam dependência, até como forma de acabar com o estigma em relação a transtornos mentais.

Quanto a termos êxito nessa árdua luta para salvar nossos jovens das drogas, na opinião de Restrepo isso é possível, desde que os governantes se conscientizem que investir apenas em programas policiais ou judiciais não adianta. “É preciso ter disposição política para investir mais em saúde pública,” alerta. Eu confabulei com vocês sobre isso no post  Combate às drogas  .

Quanto tempo mais teremos para cuidar disso com seriedade? Se você tem alguma dependência, qual sua opinião? Gostaria de saber também o que pensa se vc é da área de saúde pública.



A equipe da Vila Serena Bahia, organizadora do Simpósio, com Ricardo Restrepo.
Da esquerda pra direita: Priscila Brito,  Júlia Damiana e Moema Raquelo