domingo, 23 de março de 2008

Inversão de valores

Realmente vivemos um momento cada vez mais longo de inversão de valores. Enquanto tantas pessoas tentam viajar sem conseguir patrocínio, a cafetina Andréia Schwartz , condenada pela Justiça americana por explorar a prostituição e por porte de drogas, viaja de primeira classe com a ajuda do bispo Edir Macedo, dono da Rede Record, e cortesia da American Air Lines. viveu seus momentos de glória no retorno ao Brasil, sábado passado.

Andréia ainda diz que alguns veículos de comunicação estão levando ela a sério. No Espírito Santo, onde desembarcou, ela teve o privilégio descer do avião direto em um carro, no qual foi levada ao estacionamento externo do aeroporto, sem passar pelo terminal de passageiros. Jornalistas aguardavam às 22h30 de ontem, quando o avião pousou.

Depois dizem que nosso País e a nossa Imprensa é séria. Faça-me uma garapa.

terça-feira, 18 de março de 2008

Polícia e sua própria justiça

Podemos fazer justiça com as próprias mãos? E a polícia, pode?
No domingo, 16/03, presenciei um fato perigoso e lamentável que me fez questionar até onde a polícia, aliás, os policiais baianos - assim como provavelmente em todo o Brasil, estão preparados para cumprir a sua função. De acordo com Constituição do Estado, compete à Polícia Militar a execução, com exclusividade, do policiamento ostensivo fardado com vistas à preservação da Ordem Pública. Sua ação é tipicamente preventiva, ou seja, atua no sentido de evitar que ocorra o delito. O que vi destoa dessa descrição.
Por volta das 14h40 do domingo, no Hospital Geral do Estado, vi chegar uma viatura policial , dessas utilizadas pelas patrulhas de rondas especiais, com dois policiais na boléia e outros dois parte externa do veículo, junto a um prisioneiro. Magro, moreno claro, tinha sangue escorrendo pela cabeça. Quando o carro parou diante da portaria, um grupo de oito a 10 homens, policiais em trajes civis, praticamente " voaram" para cima, com o objetivo de matar o prisioneiro. Cumprindo seu papel, um dos que estavam na viatura chegou a sacar da arma contra os colegas da corporação para garantir que ninguém tocaria no prisioneiro.
A confusão foi generalizada. Muitos dos cidadãos que estavam na área, naquele momento, como eu, optaram por se afastar um pouco do local, com medo de bala perdida. O coronel Legsamon Mustafa, do Serviço de Valorização Profissional da PM (Sevap), que estava no HGE naquele momento, precisou gritar forte e sacudir sobre os justiceiros as muletas que usava. Depois de 15 a 20 minutos, os policiais fardados conseguiram adentrar o hospital com o prisioneiro.
Soube depois, pela minha irmã que estava lá dentro, que a confusão prosseguiu no interior do hospital: médicos, enfermeiros , acompanhantes de pacientes e os próprios pacientes ficaram nervosos e tentaram se esconder com medo de tiros também lá dentro.
Conversando com um e com outro do lado de fora, descobri que o grupo de justiceiros queria vingar a morte do policial Cidarta, assassinado no Vale das Pedrinhas. Cheguei a ouvir uma conversa: um policial fardado pedia desculpas ao outro sem farda, por ter impedido a execução. " Estamos em operação, não pudemos fazer nada. "
A minha confabulação é sobre isto. Onde está a responsabilidade dos policiais militares, que estavam dispostos a executar alguém diante de tantas pessoas, a trocar tiros em um local onde as pessoas buscam assistência? Imagino a dor desse grupo, assim como dos familiares, de ter perdido um amigo na guerra contra o crime. Mas isso não os libera para fazer justiça com as próprias mãos. Se cada cidadão segue o exemplo e mata aquele que roubou, estuprou ou matou alguém que queira bem, teremos uma guerra de fato.
Minha sugestão é que o comando da Polícia Militar pense e execute, urgente, um trabalho de humanização dos policiais. Sei que não se pode tratar bandidos com carinho e afago; mas acho perigoso quando a polícia passa a agir igual àqueles a quem combate.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Atropelando a vida




Quando da minha infância, no sertão de Paulo Afonso, o chamado para a criança ser matriculada nas escolas da CHESF só acontecia ao completar 7 anos. E foi nessa idade que fui cursar o pré-primário na Escola Adozindo Magalhães de Oliveira, embora já soubesse ler e escrever (tinha aprendido assistindo as aulas particulares que a vizinha, Leda Henrique, dava para meus irmãos maiores e outros meninos e meninas da Rua L). Surgiu a oportunidade de fazer um teste para "pular" para a 1ª série. Dois colegas fizeram e passaram. Eu quis fazer e meu pai não deixou: achou que eu seria prejudicada por pular uma etapa. Na época fiquei muito frustrada. Eu tinha certeza que sabia ler e escrever muito bem. Hoje, passados 38 anos, sou grata ao meu pai. Não pulei etapas, convivi com crianças da minha faixa etária, fiz amizades que prosseguem até hoje, e tive a oportunidade de apreender - porque já tinha aprendido - o be-a-bá com as professora Aparecida,Elisa, Marlene...


Quando meu filho-emprestado, Cacá, tinha 13 anos, foi estudar no Colégio PHD, na Pituba. Só no final da segunda unidade descobrimos que a sua turma era composta, quase metade, de alunos repetentes da faixa etária de 17-18. Como eu, muitas outras mães protestaram, porque as experiências e comportamentos dos "ganzelões" estavam influenciando negativamente nos pré-adolescentes, principalmente no que dizia respeito ao fumar e ao beber.


Volto ao passado para falar sobre o caso do garoto de Goiania, João Victor Portellinha, de 8 anos, cujos pais o inscreveram em um vestibular e agora querem que sua matrícula seja efetivada no curso de Direito da Universidade Paulista (Unip). Com todo o radicalismo a que sou capaz ( infelizmente muitas vezes, ainda), considero uma insanidade desses pais - ou melhor, da mãe, afinal o pai prefere não se pronunciar, conforme reportagem publicada hoje no Jornal A Tarde, pág. 18. Primeiro, porque João só tem 8 anos e, como disse o presidente da seccional de Goiás da OAB, " ele não tem maturidade". Claro que nas salas das faculdades tem um monte de jovens sem maturidade também, mas todos já estão com pelo menos oito anos de vida e experiência além do João.


Segundo: todos sabem que o MEC exige que o candidato tenha cursado - e tenha sido aprovado - no Ensino Médio ( ex-colegial,ex-científico, ex-2º grau). João ainda está na 5ª série do Ensino Fundamental. Dizem as reportagens que o sonho de João Victor é ser juiz federal. Caso a Justiça passe por cima das regras estabelecidas, como tem acontecido em outras situações, e o garoto consiga passar em todos os concursos, chegará ao cargo pretendido antes dos 18 anos. Questiono: apesar de inteligente, ele terá a tal maturidade necessária para ser juiz?


Terceiro: se existem regras, elas devem ser seguidas, pois não?


A mãe bem que poderia deixar a vaidade de ter um filho tão inteligente um pouquinho de lado e deixar o bom senso comandar suas ações. Desejos e birras de crianças são contornáveis. Não devemos, isto sim, é atropelar as etapas da vida, sob risco de consequências imprevisíveis.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Combate às drogas

Hoje pela manhã, depois de ter lido uma mensagem que finalizava com " a felicidade começa em quem tem bons princípios", resolvi priorizar a atualização do Forquilha. Nos últimos meses não tenho dado essa prioridade, deixando-me consumir pelas demandas dos trabalhos e da família. Mas hoje acordei com vontade de escrever. Ao acessar o blog, vi que tinha um comentário a moderar para a confabulação Olhos fechados para as drogas , postada em 4 de Julho de 2007. É de um adicto (dependente de drogas) relatando seu drama pessoal, sua luta para vencer o crack:


" OLÁ, MEU NOME É (ALDSJ), SOU UM ADICTO EM BUSCA DE RECUPERAÇÃO, TENHO 24 ANOS, MORO EM SALVADOR, COMECEI O USO DE DROGAS AINDA NA INFÂNCIA, NÃO CULPO MINHA FAMÍLIA NEM SUPOSTOS "AMIGOS", A DOENÇA É MINHA. EM 11 DE ABRIL DE 2007 APÓS TER VENDIDO TUDO QUE TINHA DENTRO DA MINHA CASA PARA FAZER O USO DE CRACK, FUI INTERNADO NA VILA SERENA (CENTRO DE TRATAMENTO DE DEPENDÊNCIA QUÍMICA) QUE USA COMO TRATAMENTO OS DOZE PASSOS DE NARCÓTICOS ANÔNIMOS, VI MUITA COISA RUIM LA DENTRO MAIS TAMBÉM VI MUITO MAIS COISAS BOAS, SOU MUITO GRATO PELA OPORTUNIDADE QUE MINHAS TIAS ME DERAM E DA TERAPEUTA VALÉRIA DA VILA SERENA, MAIS MESMO COM ESSA FORÇA TODA NÃO ADIANTOU, ATÉ CONSEGUIR FICAR LIMPO QUASE SEIS MESES MAIS NO DIA DOS PAIS TIVE UMA RECAIDA E DE LÁ PRA CÁ NÃO TENHO CONSEGUIDO FICAR LIMPO NEM 90 DIAS.MEU PONTO DE VISTA É QUE DROGAS É SIM UM PROBLEMA SOCIAL MAIS NINGUÉM VAI NO BAIRRO DO RICO, SÓ OLHAM PRO POBRE FAVELADO, MAIS NÃO DIVULGAM O QUE O RICO ROBOU NA RUA PQ SUA FAMÍLIA TEM INFLUÊNCIA.SÓ POR HOJE QUERO FICAR LIMPO E SER FELIZ ENQUANTO AINDA TENHO SAÚDE, PEÇO DESCULPAS A TODOS QUE MACHUQUEI.VANDA, PARABÉNS CONTINUI COM ESSE TIPO DE TRABALHO E QUE DEUS ESTEJA SEMPRE CONOSCO."


Concordo com ALDSJ: as batidas são sempre nos bairros de população mais pobres, passando o rodo em traficantes e usuários. Mas, e os usuários e traficantes que residem nos bairros de classe média? Quando assisti Tropa de Elite, não tive como não concordar com o Capitão Nascimento, que responsabiliza o universitário, de classe média, pela morte do traficante.


Como disse no artigo de Julho do ano passado e como diz o meu leitor, a adicção não é culpa da família ou dos amigos. É, na minha opinião, fruto de uma escolha errada feita em algum momento, por motivos diversos: curiosidade, angústia, depressão, revolta... Todos significando uma só coisa: fraqueza interior. Uma fraqueza física, mental e espiritual. Cada um de nós tem que encontrar e reconhecer a força que traz no seu próprio EU. Sem esse reconhecimento, nenhuma mão estendida será capaz de salvar da pena de morte decretada pela droga: overdose ou morte (pela polícia ou pelo traficante).


Acredito na força da espiritualidade. Acredito na vida após a morte e na força do trabalho dos que estão na outra dimensão, seja para o bem, seja para o mal. Em ambas, contudo, o efeito só acontece se permitirmos com nossos pensamentos, vontades, atitudes.


Mas, independentemente das ações desenvolvidas pelos espíritos do bem, digamos assim, o Poder Público pode e deve fazer alguma coisa. Claro que não é permitir que a polícia ou grupo de exterminadores saia matando por aí, fazendo uma limpeza, principalmente étnica. Mas com programas sociais, principalmente nas escolas de Ensino Fundamental. Como disse o meu leitor, a adicção começa cedo, muito cedo. Com um agravante, sem que os pais - desatentos, ou ocupados, ou liberais, ou... - se dêem conta. Não adianta tapar o sol com a peneira. Precisamos agir. Dentro de casa, sendo mais presentes nas vidas das nossas crianças. Na vida, sendo mais tolerantes com as fraquezas alheias. Como diz a Oração da Serenidade, adotada pelos A.A., Al-Non, N.A. e Nar-Non, que Deus nos conceda a serenidade para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar as que podemos e saberia para perceber a diferença entre elas.


Para os adictos que confabulem comigo,aliás, para todos que confabulem comigo, indico para leitura o blog recuperarequeestaadar.blogspot.com


A felicidade, é vero, começa com bons princípios.